segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

A Alta de Lisboa só avança com passeios de lama?

O projecto da Alta de Lisboa é arrojadíssimo. Implica o realojamento de milhares de pessoas, a construção de milhares de fogos, escolas, espaços verdes, equipamentos sociais, vias rodoviárias. Um sem número de obras a decorrer simultaneamente, difíceis de gerir, difíceis de planear, difíceis de conjugar com a vida já existente no bairro, maior que muitas cidades.

Fazer de novo, arrasar casas degradadas, terraplanar colinas, construir estradas, ligações, acessos, prédios de habitação com 9 andares, implica um estaleiro permanente que já foi muito discutido por ser tão incómodo e prejudicial ao dia-a-dia dos moradores actuais. Este estaleiro é uma contingência inevitável de um projecto gigantesco que ainda está a mais de dez anos da conclusão.

No entanto, há situações que não são compreensíveis. É o caso das ligações rodoviárias e pedonais entre a zona Sul e zona Norte. Neste momento, como desde há meses, a ligação rodoviária é feita exclusivamente por esta rua, com um sentido para cada lado. São crescentes os engarrafamentos em hora de ponta, como já foi dito aqui e aqui.



É evidente que os engarrafamentos não ocorreriam se as pessoas preferissem os transportes públicos ao transporte privado. É uma mudança de mentalidades necessária na população portuguesa, mas isto também não ajuda. Para além, obviamente, do círculo vicioso que é a relação dos atrasos pela falta de mobilidade dos transportes públicos pela excessiva utilização do transporte privado. Quanto maior a utilização do automóvel, menor a mobilidade do autocarro, quanto menor a mobilidade do autocarro maior o atraso e desconforto dos passageiros, quanto maior o atraso e desconforto dos passageiros maior a vontade de preferir o automóvel. São necessárias medidas políticas corajosas que defendam a mobilidade e eficácia dos transportes públicos.

Mas os engarrafamentos são uma realidade incontornável no presente, e a única hipótese de lhes fugir, não havendo ainda estruturas que facilitem o uso da bicicletas, é ir a pé. O problema é que o percurso pedonal existente para ligar as zonas Norte e Sul da Alta de Lisboa, para além da rua contígua ao Complexo Desportivo, tem o aspecto que as imagens em baixo mostram.



Para que não pensem que há sempre a hipótese de atravessar a rua e caminhar no outro passeio, aqui fica também a imagem desse lado.



Não se percebe, não se justifica, por mais complexo que seja o planeamento da construção de uma cidade, que se despreze e maltrate assim os seus habitantes. É necessária uma grande capacidade retórica para justificar o esquecimento anos a fio de uma situação destas. Não é digno de um projecto com tantos méritos reconhecidos internacionalmente, com ideais sociais tão apregoados, desleixar a este ponto as necessidades urbanas mais básicas, rementendo a cidade para um nível terceiro-mundista. Não é só a capacidade de escoamento rodoviário da Alta de Lisboa para outras zonas da cidade que está em causa, é a própria mobilidade e vivência dentro do bairro, às vezes na própria rua.

E já agora, com o atraso da finalização do Parque do Vale Grande que neste momento, por estar vedado ao público, funciona como tampão entre os dois hemisférios da Alta de Lisboa, não seria uma atenuante acelerar a conclusão do Eixo Pedonal para o abrir ao público? Seria uma forma simples de minimizar o estado de ilha a que muitos moradores estão actualmente condenados. Mesmo assim, será também necessário adaptar o estaleiro da futura malha 6 para que estas vias possam funcionar.


Todos têm a ganhar com a melhoria das condições de vida na Alta de Lisboa. Os moradores, por serem directamente afectados, a SGAL que quer vender um produto que nitidamente é inferior no campo do que nos panfletos publicitários, e o executivo da CML e UPAL, por lhes ser posteriormente reconhecida a competência no seu papel regularizador e executor da cidade.

4 comentários:

Pedro Veiga disse...

Lama e mais lama. Nos dias de chuva tudo parece pior. De qualquer forma os impostos não deveriam ser iguais para quem tem que passar por estas estradas e caminhos para chegar a casa!
Já escrevi uma carta ao presidente da CML a dar conta do estado a que chegaram os acessos do Alto do Lumiar. O problema é vamos ter que viver com estes remendos por mais algum tempo.

joana disse...

Pedro,

Não me queres enviar o texto da carta? Gostava de tb eu escrever qualquer coisa, personalizada e não uma carta tipo, mas acho que precisava de um exemplo para me inspirar. E essa dos impostos é boa. Era giro, um boicote ao IMI :-) em peso, da Alta de Lisboa.

E quando o Tiago diz "Todos têm a ganhar com a melhoria das condições de vida na Alta de Lisboa" realmente não se percebe pq é q as coisas não andam para a frente. Acho que o que temos mesmo que fazer é chatear, chatear, chatear, até que dê mais trabalho aturar-nos do que fazer as coisas.

Pedro Veiga disse...

Joana,
Em breve irei colocá-la neste blog, para contribuir para esta causa.

Ana Louro disse...

Eu acho que temos que insistir cada vez mais e no maior número de canais possível, porque senão parece que continuaremos a viver num estaleiro permanente. Há zonas pedonais que já deviam estar "terminadas". Há vários meses que, por exemplo, está em construção o passeio que ladeia o Parque das Conchas na "Alameda das Conchas" (já o construíram e destruíram várias vezes, o que teve custos - mão de obra, material, tempo...). Agora no cruzamento com a Helena Vaz da Silva, no acesso ao Parque (e ao Metro e ao Lumiar, para quem se desloca a pé), já quase só cabe um veículo de cada vez e os peões que ali passam todos os dias arriscam a ser atropelados (não há passadeiras, nem brancas nem amarelas) pelo que estou a pensar propor arranjarmos umas tintas e irmos pintar passadeiras se a situação se arrastar. Infelizmente para os inúmeros passeios em falta na Alta ainda não tenho solução... A vereadora Marina Ferreira tem a seu cargo a Mobilidade e acabei de enviar-lhe um email sobre a falta de passadeiras para marina.ferreira@cm-lisboa.pt