sexta-feira, 13 de julho de 2007

Cidadão de Lisboa




No próximo Domingo, não vou à praia; no próximo Domingo vou votar. Em branco.

Valerá a pena explicar porquê?

Comecei a pré-campanha para estas eleições com uma réstea de esperança a intrometer-se no grande deserto do cepticismo que anos e anos de ausência de reflexão urbana política em Lisboa tinham criado. Afinal havia candidatos rebelados contra o monolitismo dos partidos-mãe (pelo menos no campo das aparências). Havia a candidatura do Partido da Terra com a sua pretensão de defesa de mais verde para a cidade. Havia o Zé, com a possibilidade de sobrepôr a denúncia de muitas situações à demagogia que cada vez mais o invade e ao partido que o alberga. Haveria muitos candadatos a propor, a falar, a discutir, a divergir. Havia a percepção de que - concorrência oblige! - era necessário chegar mais perto do eleitor, era necessário um esforço extra para comunicar, era necessário conversar.



Pois, pois, pois, pois. Era mesmo uma atitude naif.

A lista de perguntas que enviei às candidaturas era o princípio da incerteza no meio desta esperança toda em amanhãs radiosos que inventei. Não sei se a enviei para provar que tinha razão em acreditar que a transparência existia e que os candidatos tinham mesmo pensado em soluções para a cidade ou se a enviei para provar que só as moscas tinham assumido uma forma ligeiramente diferente.

Afinal, como comentou alguém por aqui, era o que faltava uma candidatura andar a responder ao primeiro marmelo que lhe aparecesse a fazer perguntas.

E eu marmelo me confesso, as perguntas ficaram sem respostas.

Porque é que me interessava fazer esta perguntas? Porque me permitiriam perceber se, para além dos clichés, das imagens politicamente correctas, da poética das ideias, os candidatos tinham uma noção da realidade e de como elas conseguiriam ser postas em práctica. Porque me permitiriam perceber se estas eleições iriam ultrapassar o plano de jogos florais onde, normalmente, se têm situado as mais recentes campanhas eleitorais.

Sem estas respostas - faça-se aqui uma ressalva para a única excepção, a de Manuel João Ramos, nº2 da lista encabeçada por Roseta e em "risco" de vir a ser eleito (é uma private joke) que, sem me conhecer, aceitou entrar no jogo da franqueza e revelar a sua visão para a cidade; pressinto que a sua condição de não-político terá sido a principal razão de tanta transparência( e de tanto risco) - fiquei reduzido à leitura dos programas para informação. Li quase todos, comentei alguns... devo ter sido dos poucos a lê-los porque se houvesse a mínima suspeita de que a população lisboeta os leria e discutiria com um mínimo de seriedade e conhecimento quase nenhum teria visto a luz do dia. De tão ... fracos que são. Impraticáveis. Utópicos. Irreais.

O que vale é que não há muita tradição de cumprir programas em Portugal.

O que vale é que, com a necessidade de coligações que se prevê, se terá um excelente guarda-chuva para justificar o que não se pôde fazer.

Porque não escolho eu um "mal menor" e evito essa negação aparente da escolha que é o voto em branco? Porque não escolho uma candidatura de aparente ruptura como as do BE, dos CpL ou do PCTP? Porque não dou o meu voto a uma candidatura aparentemente ecológica como a do MPT? Porque não dou o meu voto a quem tem as costas quentes (e as verbas providenciais) do Governo?

Valerá a pena acreditar na ruptura de alguma das candidaturas? Que ruptura apresenta Roseta quando trouxe para a sua lista, adoptando a sua visão, o responsável pela política de reabilitação urbana da colição PS/PCP? Concordo eu com ela? Face aos resultados (não me venham dizer que PSL deu cabo de tudo: o PSD adoptou a política de reabilitação urbana do PCP - limitou-se a mudar as pessoas!) alguém pode concordar? Que ruptura poderá o BE trazer se se coligar com António Costa?

Valerá a pena pensar no MPT? Onde estão as ideias para além do 7 pontos peregrinos que apresentaram? Que visibilidade têm os votos numa candidatura invisível?

E poderei eu em consciência dar o meu voto a quem acha natural a migração do aeroporto da cidade para tão longínqua localização, a quem nunca se pronunciou sobre a machadada para uma série de actividades que essa migração vai significar, a quem como valência para o urbanismo da cidade traz o responsável pelos planos da EXPO e do POLISCACÉM (é aquela solução que eu quero para a minha cidade?)



Vi um mínimo de pensamento global para a cidade em alguma das candidaturas? Não vi.

Vi em alguma a consciência de que só mudando paradigmas profundos na maneira de gerir a cidade e a região se pode inverter a morte anunciada de Lisboa? Não vi.

Vi, para além da aparência de ouvir, a capacidade de escutar e discutir?

E por isso, meus renitentes leitores, o meu boletim será dobrado sem um risco de caneta. Só espero que não exista nenhuma mãozinha milagrosa a acrescentar a posteriori uma cruzinha nada inocente.

11 comentários:

Anónimo disse...

É muito trsite, mas é verdade. Também votarei em nenhum deles, nulo. Porque já não confio sequer que respeitem o meu voto branco. Não abdico de votar, mas não merecem mais do que um traço de alto a baixo.

Anónimo disse...

Pois eu tenho pena que o CDS perca o vereador.
Vamos ter 3 representantes da "loony left" (Ruben/Ze/Roseta), 3 da social democracia (Costa/Negrao/carmona) e ninguem da area conservadora.
http://expresso.clix.pt/Dossies/Interior.aspx?content_id=401011&name=Corrida%20%E0%20presid%EAncia%20de%20Lisboa

Mas Costa e um politico habil e penso que sera um bom presidente.
Bom dia de eleicao
PD

Ponto Verde disse...

Ploliticos, politicos, politicos, veja a actuação deste na margem sul:

Vereador do ambiente do Seixal sugere que defensores de zona verde poderiam ter ateado fogo a uma floresta para que não construíssem nela!

ver em www.a-sul.blogspot.com

eleitor disse...

Eu não alinho em campanhas à boca das urnas. Vou votar.

Ana B. disse...

Pois é, Pedro, também acho que a campanha foi fraquinha. Chocha mesmo.

Lembro-me de quando era criança admirar o debate político das questões nacionais e da cidade. Da discussão de ideias, de diferentes visões sobre uma mesma realidade, dos problemas. Porque antes de encontrar as soluções é preciso saber identificar os problemas.
Também vi pouco disso nesta campanha de Lisboa. E, ou tudo não passou de um deslumbramento infantil ou terei que aceitar que, nos dias de hoje... é o que temos.

O José Pacheco Pereira escreveu um artigo na Sábado desta semana sobre o assunto.

Eu, tal como a maioria dos lisboetas, não li os programas. Ouvi apenas os candidatos. E eles disseram pouco. O Viver convidou-os a dizerem mais. E apenas um deles respondeu.

Como cidadã, agradeço a tentativa de serviço público que fizeste.

De qualquer forma, também não vou à praia, vou votar.

Anónimo disse...

O BE foi ontem a a Troia (Setubal) protestar conta os "interesses imobiliarios" com um cavalo de troia (Grecia). Metafora para: entrar nos telejornais em dia de reflexao para as eleicoes em Lisboa.

carlos ines disse...

Vergonhoso.
Em pleno dia de eleições (ou no dia anterior) um representante do blog a escrever que vai votar em branco.....
Está tudo dito. Este blog não está ao serviço da Alta. É apenas mais um blog no meio dos milhões que por ai andam....

Pedro disse...

"Em pleno dia de eleições (ou no dia anterior)"? Ahahahahahah, desculpe, mas é sempre muito divertido ler as suas provocações...
Eheheheh, dizer que é vergonhoso anunciar que se vota em branco depois de nos acusar de parcialidade em favor de duas candidaturas é de facto genial.

carlos ines disse...

Pedro,
Votar em branco, na Lena ou no Zé, qual é a diferença?
Pior, o que é que a sua opinião nessa materia tem a ver com a Alta?

cidadão disse...

Eu também considero este post muito infeliz. Esta indicação de intenção de voto é lamentável. É mais um blog...

Luís Miguel Marques disse...

A única forma que as pessoas demonstram ter opinião própria e serem intelectualmente evoluídas é envolverem-se no vómito da própria prosa, dizendo mal e sendo constantemente do contra. Até ao ponto ridículo de encontrar um ângulo diferente numa esfera se tal fosse necessário. Discordar e procurar divergências é bom, é uma forma de convergir e discutir positivamente, mas procurar divergências porque sim é obtuso. Tou farto de Miguéis Tavares e pseudo intelectuais. Libertem-se! Às vezes concordar também pode ser sinónimo de inteligência.