quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Integrado na sociedade.

Lembram-se de não ter conseguido ter consulta no Centro de Saúde?

Pois é. Como não consegui e estava demasiado debilitado para ir ao hospital, liguei a um médico amigo meu. Descrevi-lhe os sintomas. Isso é uma virose que anda pr'aí. Vais tomar um comprimido disto e dois daquilo até te passar, disse-me.

Passou, três dias depois. Foi forte, perdi uns 4 kilos. Faltei dois dias às aulas, 2ª e 3ª feira.

No regresso, uma quarta-feira, passei pelo Centro de Saúde perto da minha antiga casa, onde ainda tenho ficha e médico de família. A Dra. não está e só volta na 2ª feira que vem. Olha que chatice... E não posso falar com outro médico? É que estive doente e tive de faltar ao trabalho. Não, se a Dra. é a sua médica de família é com ela que tem de falar. Só na 2ª feira.

Não quis deixar passar tanto tempo e pedi ao meu médico amigo, que me foi acompanhando nestes dias, um atestado médico. Não serve para apresentar na escola, porque só o aceitam se for passado no Centro de Saúde, mas serve para a Dra. não ter de ter de confiar em mim mas num colega de profissão.

Anteontem, 3ª feira, depois das aulas da manhã, no dia em que acabava o prazo de apresentação do atestado, fui novamente ao Centro de Saúde para falar com a minha médica de família.

Tirei uma senha. Nº 6. No visor marcava o 4. Eram 12h45. Sentei-me à espera. O Jornal da Tarde começou. O nº4 não saía do visor, apesar de ver algumas pessoas a serem atendidas. Três funcionários a competir pelo prémio do mais lento do mês. Levantei-me e perguntei se o sistema das senhas estava a funcionar, que tinha o nº 6 mas que já estava há 20 minutos sem ver aquilo avançar.

Diga lá. Digo? Mas o meu nº é o seis, ainda falta o cinco antes. Diga lá o que quer. Expliquei: era só para a Dra. passar o atestado para um papel do Centro de Saúde porque não me aceitavam aquele de um médico particular no emprego. Ah, a Dra. já não vai atender ninguém hoje. Mas é só um papel. Não. Volte amanhã. Mas o prazo acaba hoje. E porque não veio na semana passada? Eu vim, mas a Dra. estava fora. Ah, pois, a Dra. foi a um congresso. Mas porque não veio ontem? Porque trabalhei o dia todo e não pude. E porque não veio hoje mais cedo, de manhã? Porque dei aulas de manhã, disse já um pouco irritado. Eu não sou aposentado, trabalho e só costumo faltar quando estou doente. É por isso que estou aqui agora, na hora de almoço. Olhe, se quiser espere aí e quando a porta abrir fale com a Dra..

Sentei-me à frente da porta e esperei. Não percebia aquela desorganização, aquela aleatoriedade. A Dra. não recebia mais ninguém mas afinal eu podia entrar pelo consultório dentro a pedir o papelinho. Confuso. O tempo foi passando. Assisti a um rodopio de entra e sai das funcionárias no consultório. A última vez perguntei com os olhos. Hoje não. Eu já lhe tinha dito. Só amanhã. Porque não veio ontem? Ou hoje mais cedo?

O diálogo que se seguiu não vou reproduzir. Eram 14h, uma hora e um quarto depois de ter tirado a senha nº6. O funcionário cedeu e disse-me então: Olhe, dê-me o atestado que eu peço à Dra. Fernanda que entra às 15h. Pode voltar a essa hora? Posso, mas dou aulas às 16h na outra ponta da cidade. Esteja descansado. O nº4 continuava visível no visor.

Fui almoçar e voltei às 15h. Um quarto de hora depois chegou a Dra. Fernanda. Dra., está ali aquele rapaz por causa de uma baixa, está aqui o papelinho. A Dra. Fernanda olhou-me de alto a baixo e disse Já o atendo, com cara de poucos amigos.

Esperei. Depois achei melhor ir para a porta do consultório dela. A sala de espera tinha umas dez pessoas, todas com marcação. Às 15h35 a porta abriu-se. Saíu de dentro um Delegado de Informação Médica. Foi o primeiro a ser atendido. Eu não seria o segundo: Tenho esta gente toda à sua frente, apontou. Isto é rápido, e eu vou dar aulas às 16h, não pode por favor preencher-me o papel agora?

A cara de poucos amigos desapareceu e deu-me passagem. Sentei-me. Olhou para mim, e disse: Mas neste caso porque traz um atestado de outro médico? Eu sei que não é aceite no meu emprego, mas por uma razão deontológica achei que vocês preferiam confiar na palavra de um colega do que na do paciente. Mas o senhor é professor, está devidamente integrado na sociedade, não temos quaisquer razões para desconfiar de si. Pois... Obrigado.

Três minutos depois estava na rua, com o necessário papelinho. Fui à secretaria da escola e entreguei-o. Professor, ainda tem mais uns papéis para assinar, para anunciar o seu regresso ao serviço. Trato disso amanhã, está bem? Tenho aulas para dar daqui a 15 minutos na outra ponta da cidade.

Claro que não cheguei a tempo. Tive de faltar e desta vez para descontar no vencimento. Tratei hoje dos papéis.

16 comentários:

Pedro Veiga disse...

Esta do atestado ter que ser passado num centro de saúde para ser válido é incrível!
Ora, se não temos centros de saúde suficientes, nem tão pouco médicos de família porquê insistir nesta burocracia que só vai prejudicar o doente?
O meu filho adoeceu no sábado passado com uma virose fortíssima que ainda hoje de madrugada lhe provoca febre de quase 40 º, para além de grandes dificuldades respiratórias. Se eu tivesse recorrido àquela espécie de "centro de saúde" da Charneca (centro que fica no concelho de Loures) ele não conseguiria ser atendido sequer porque não tem médico de família.
A solução é recorrer ao médico privado. Depois as despesas serão para apresentar em sede de IRS. Só espero é que o nosso Eng. José Sócrates não me inclua no clube dos "ricos" para poder ainda ser ressarcido de parte da verba gasta!
A saúde é um direito para todos. Será mesmo verdade?

Anónimo disse...

Mas por se ser professor neste país já temos direito a ter um sorriso especial e a que a nossa palavra valha mais do que a de qualquer outro cidadão? Pais este que reclama por igualdade...
Enfim, infelizmente esta situação repete-se um pouco por esta cidade, no outro dia aconteceu-me o mesmo no centro de saúde de Alvadade, tive seis horas a espera de ser atendida, mas discordo que a culpa seja do Eng.º Socrates, tem culpa de muita coisa mas se há coisa que não controla é a atitude das pessoas enquanto trabalham e a sua falta de respeito para com os "utentes", pessoalmente prefiro a palavra cidadãos a utentes.

Joana disse...

A gestão dos Centro de Saúde varia muito de centro para centro. Lembro, a propósito, uma Reportagem TSF, "Cuidados Primários", que reflecte esta disparidade. O link é este (http://tsf.sapo.pt/programas/programa.aspx?content_id=917979&audio_id=893944) mas penso que já não estará em arquivo, eu não consegui ouvir.

Assim sendo, quem não adoece com frequência, não sabe bem para onde se virar, como estão (des)organizadas as coisas no seu C. Saúde. E não posso falar do da Charneca, por isso mesmo. No do Lumiar (lá em baixo e no Alto do Lumiar) acho que há organização a melhorar, mas consigo mexer-me no sistema, não graças a estarmos sempre doentes, mas o facto de sermos 4 (em breve 5) faz com q haja 1x um, 1x outro, já alguma frequência.

Isto para dizer que, não me leves a mal, mas teria feito as coisas de modo diferente de ti. Mas, Tiago, tb gostava que me explicasses como querias uma consulta aqui se ainda estás inscrito noutra zona da cidade.

Anónimo disse...

bem...de vez em quando tenho de utilizar serviços públicos...c. Saude, Hospitais, finanças, segurança social..coisas do género.

Primeira nota, muito importante, há uma enorme disparidade de tratamento dependendo do sitio e da pessoa que atende. Não devia ser assim..mas é. E convem dizer que encontro, com frequência, pessoas interessadas e empenhadas em resolver as questões.

Dito isto...a minha estratégia é ter "personagens", começo "normal", se não funciona faço o coitadinho, o pedinchão, o institucional, o agressivo e asim sucessivamente.
uma das personagens acaba por desvloquear a situação e raramente tenho de me chatear muito.

Agora..ter de pensar nisto e pensar qual a melhor forma de ser atendido com o minimo de eficiência, é triste..muito triste.

Miguel

Mr. Steed disse...

este é o sistema dos reizinhos. o reizinho funcionária, o reizinho senhora doutora. que falta de paciência para eles.

Ó joana desculpa lá mas essa de "eu sei mexer-me no sistema" é de vómitos. logo à partida separa os cidadãos entre espertos e palermas. os espertos conhecem a senhora do guichet (o reizinho de serviço) e a senhora doutora (o reizinho com diploma que olha as pessoas de alto a a baixo). aquela gente só tem de fazer o básico que é atender os clientes bem e com respeito. desculpa lá mas quem não é doente profissional e só lá vai uma vez por ano merece a mesma qualidade de serviço que os outros.

Henrique Relogio disse...

Bem visto, subscrevo a opinion do Mr. Steed.

Já me aconteceu uma situação idêntica como penso que a praticamente todos os que lerem este post.

Fica a ideia.
Porque não apresentar queixa no livrinho branco, amarelo, azul, etc.

Dirão uns, que não vale a pena, etc, etc, mas eu apresentei e valeu a pena.

Tiago disse...

Pois, Joana. Continuo inscrito no outro Centro de Saúde porque a minha vida profissional continua a ser feita próximo desse e passo lá a maior parte do tempo. Devia inscrever-me aqui?

Conheço quem se tenha inscrito há um ano e ainda hoje aguarda o cartão de utente. E não tem médico de família, ou seja, se tiver de lá ir será atendida por um dos médicos que lá estiver, que pode nunca a ter visto, e no fim do dia, depois de atender os pacientes que lhe estão anexados.

E, não me leve a mal também, mas também acho abominável o discurso do "consigo mexer-me no sistema". Cheira-me demasiado a chico-espertice. Não gosto de me armar em esperto, não gosto de passar à frente de pessoas nas filas, não gosto de ter de criar cumplicidade com funcionários porque é a única maneira de entrar no sistema. E acho que não tenho de desatar a ter filhos para poder entrar no sistema.

Em condições normais teria esperado o fim da lista dos utentes no Centro de Sáude, mas como era uma coisa de 3 minutos, como foi, e como já estava à espera há horas e tinha urgência em sair dali, pedi para ser atendido.

Preencher o livro de reclamações é uma boa maneira de marcar a posição de desagrado pela forma como se recebe um serviço pelo qual se paga. É provável que passe a fazer isso, sim.

Joana disse...

Mr. Steed e Tiago, não perceberam o que quiz dizer, desculpem lá se me expressei mal. Tem a ver com a organização das coisas. Por exemplo. Se já sei que só consigo consulta para dali a 2 ou 3 dias, marco-a na mesma por causa do atestado. Mesmo q me trate com o médico amigo, como o Tiago, se ele tivesse marcado a consulta para daí a 3 dias, tinha o atestado na altura de retorno ao trabalho. Exemplo: os miudos tiveram varicela, marquei consulta para a altura prevista de ja poderem retornar a escola. Pq sei q nao consigo a consulta para o dia, mas marca-se com facilidade consulta para dai a 1 semana. E isto é variavel de centro para centro, ptto o conhecer o sistema é conhecer a organzação do centro. Se calhar se me inscrevesse noutro centro q não conheço, quereria marcar consulta para daqui a 1 semana (caso varicela, por ex) e receberia uma resposta q consultas so se marcam nos primeiros 5 dias do mes, ou algo assim. É conhecer e mexer nesse sentido.

Mas em relação ao local em q se esta inscrito, Tiago, eu percebo as motivaçoes q te levam a nao mudar. E nao ter medico de familia e cartao de utente é um facto, eu nao tenho nenhum desses. Mas acho q no c. de saude nao se marcam consultas para quem nao esta inscrito ptto isso de nao teres conseguido consulta aqui não me parece culpa do centro.

Tiago disse...

Ah... Já percebi.

Quando fui ao Centro de Saúde daqui nem me perguntaram se eu era utente deste Centro, disseram logo que era mau dia para se estar doente. E sim, ter-me-ia inscrito neste Centro de Saúde nesse mesmo dia, para ser atendido. Mas nem sequer se chegou a colocar a necessidade.

Anónimo disse...

É espantoso como o Sr. José Socrates (não tem carteira profissional de Engenheiro, passada pela Ordem dos Engenheiros, e como tal, de acordo com a legislação em vigor não pode usar o título) se preocupa tanto com o direito ao casamento des homesexuais, porque está na CONSTITUIÇÃO que não pode haver discriminação.
O problema é que também ESTÁ NA CONSTITUIÇÃO QUE TODOS TÊM DIREITO A SAÚDE GRATUITA, mas isso já não preocupa o Sr. José Sácrates... os Homossexuais casarem-se, isso sim, é prioritário...
Peço-vos perdão e expresso aqui o meu profundo arrependimento por me ter deixado iludibriar por falsas promessas e ter votado à 4 anos neste senhor Socrates.

Ana disse...

Caro vizinho Tiago
o Sr. é um mar de surpresas.
Então o Sr. não está inscrito no c. de saúde. É consultado por um médico amigo e passa à frente dos utentes/cidadãos que estão inscritos no sítio certo, marcaram consulta e estiveram à espera. E a Joana é que é criticada por dizer que "se sabe mexer no sistema".

Meus caros quem se sabe mexer no sistema é o Sr. Tiago!
As melhoras!

Quanto a ti Joana és um amor. Tens uns filhos lindos e és uma mais valia para o planeta.
Obrigada por existires.

Mr. Steed disse...

Joana, não quero de todo estar a repisar este assunto nem provocar uma discussão desnecessária nem levar isto para um campo pessoal, o que está em causa é a falta de eficiência e o tal sistema (parece que estamos a falar de futebol).

E claro, os tais reizinhos que tanto podem estar num centro de saúde como numa repartição pública como numa associação de pais ou no conselho directivo de uma escola.

É a falta de profissionalismo destes funcionários públicos e o trato paternalista de muitos médicos que irrita.

Ana: o seu comentário mostra algum incómodo em relação ao Tiago, algo que queira partilhar connosco? Ele fez-lhe mal? Devemos castigá-lo?

Sobreda disse...

É por situações ainda bem piores que a que o Tiago descreve que um grupo de Utentes do Centro de Saúde do Lumiar, exigindo mais e melhores serviços, se constituíu em Comissão Promotora de uma Associação de Defesa dos Utentes da Saúde das Freguesias da Ameixoeira, Charneca e Lumiar, com a designação de AUSACL - Associação de Utentes de Saúde da Ameixoeira, Charneca e Lumiar, no cumprimento no que se encontra estabelecido na Lei nº 44/2005, de 29 de Agosto (Lei das Associações de Defesa de Utentes de Saúde).

Sabiam que o CS do Lumiar, que serve a população das freguesias da Ameixoeira, Charneca e Lumiar, tem inscritos cerca de 93.000 utentes? E que destes, cerca de 20.000 não têm médico de família? Que a extensão do CS no Alto do Lumiar é provisória, mas que o PUAL prevê 'n' novas extensões? E que há anos que está prevista a construção de um novo centro construído de raiz no Montinho de São Gonçalo?

Por isso a AUSACL propõe que se consulte e subscreva a petição inserida no URL www.petitiononline.com/AUSACL01/petition.html

Um abraço.

mjsarmento disse...

Ana,
É este o famoso vizinho que você me disse não conhecer, nem nunca ter visto, mas que "ODIAVA"???
Sou aquela, a Mª João.

Mr. Steed disse...

Ó Ana o ódio é uma coisa tão feia! E sem o conhecer?

Se calhar não era má ideia conhecerem-se.

Esses sentimentos normalmente partem do desconhecimento entre as partes.

Ana disse...

Querida Maria João Sarmento não sei do que está a falar!