terça-feira, 7 de outubro de 2008

Uma comédia de enganos


As declarações que o presidente da SGAL prestou ao jornal "Metro" vieram esclarecer algumas das questões levantadas pela conferência de imprensa realizada há quatro meses pelo mesmo. (ver post e comentários aqui)

Relembre-se que a mesma teve por objectivo anunciar a "normalização" das relações entre a empresa e a CML e o relançamento do projecto-Alta mais orientado para o terciário e para o comércio.

Ao reconhecer agora a inexistência de novos lançamentos nessa área, desculpando-se com a crise económica mundial, o presidente vem acentuar o que parece óbvio desde há muito: o imobilismo de uma empresa que não soube nem antecipar problemas nem apresentar soluções criativas que pudessem compensar as desvantagens que - mesmo tendo uma qualidade global acima da média - o projecto apresentava.

Não bastava citar estafadamente - qual aristocrata empobrecido - o pedigree arquitectónico e urbanístico (até porque o mesmo está eivado de pequenos erros que causa grandes aborrecimentos ou mesmo acidentes - vejam-se, por exemplo, a profundidade "criminosa" dos lagos da 1ª fase do Parque Oeste ou os vários cruzamentos perigosos que existem) e atacar quem tentava ver mais longe ou mais aprofundadamente. Era necessário demonstrar através de realizações presentes a sua mais-valia face às alternativas. A situação de quase exclusividade da habitação - ao aprofundar a desertificação diurna - constituiria um factor negativo se prolongada por muito tempo - não seriam de prever planos alternativos se a mesma se verificasse? Há quantos anos está a Av. Santos e Castro parada? Há quanto tempo está a Porta Sul adiada? Quanto tempo esteve o Eixo Central suspenso?

Era preciso ir, não mais longe, mas por outros caminhos, diversificar, INOVAR. Ao anunciar a viragem para o terciário, a SGAL parecia iniciar essa mudança. Ao vir agora desculpar-se com os sinais da crise económica mundial - e portuguesa e imobiliária - os quais já estavam bem presentes há quatro meses, é redutor e soa a uma de duas coisas: vistas curtas ou vista grossa. 

Relativamente à referência às obras do Eixo Central: estarão prontas, "o mais tardar daqui a dois anos"? É lapso do jornal? Considerando que começaram há mais de um ano, serão três anos para concretizar "a maior avenida de Lisboa"... É este o incentivo anunciado à instalação do terciário na Alta - uma intervenção a passo de caracol? Parece-me demonstrado que, mais do que um processo proactivo, o método anunciado encobria um "wishfull thinking" - a de que alguma grande empresa "distraída" acreditasse na decisão de avançar e, com isso, decidisse reinstalar-se na Alta (trazendo o dinheiro que pagaria à cabeça parte do investimento em infra-estruturas). Uma boa acção de propanganda, um mau passo de engenharia.

Passaram 4 meses e vão passar muitos mais. O projecto da Alta encalhou definitivamente até ao próximo "boom" económico mundial.

Por favor corrijam-me se eu estiver enganado. Mas não com palavras.

Com resultados.

PS - Roseta prepara "o" Plano de Habitação para a cidade. Considerando que o acaba antes das próximas eleições e que o PS o aprova e considerando que manterá as ideias que defendeu nos últimos anos e as ideias das comunidades que mais de perto privam com o seu movimento, podemos prever a inundação do mercado com a disponibilização de inúmeras casas baratas no centro da Lisboa. Ainda que os estratos etários e sociais beneficiados possam não se sobrepor com o público-alvo da Alta, eles têm sido a base do desenvolvimento imobiliário que possibilita a viabilização de projectos como este. Ergo... 

1 comentário:

Pedro Veiga disse...

Crise. A crise já existe há muito tempo. Não é de agora. Daqui para a frente o apertar o cinto vai ser muito maior (basta ver a subida exponencial dos juros, ocorrida nos últimos dias). Esta situação vai de certeza tornar impossível a venda de andares ao ritmo do fim do século XX. De acordo com as actuais tendências não tarda teremos a classe média a entregar em peso as casas aos bancos...
A Alta perdeu boas oportunidades de desenvolvimento porque os grandes projectos estruturantes foram ficando encalhados. Ora, dado que a área de intervenção é enorme, é natural que as entidades envolvidas, com destaque para a SGAL, se vejam às aranhas para conseguir pôr o comboio no caminho certo.
Penso que nem tudo está perdido. Mas a Alta necessita de um plano B mais virado para atrair empresas e negócios para a zona e menos habitação volumosa. Mas para isso é necessário completar as acessibilidades fundamentais e incluir nelas a chegada do metropolitano ao coração da Alta. Sem isto nada feito.
Com caminhos de terceiro mundo, com cruzamentos perigosos, com falta de bons transportes públicos a Alta nunca será aquilo que vem na propaganda!