domingo, 23 de março de 2008

Cinema Paraíso

"Não tenho dinheiro para reabrir e também o meu entusiasmo para lutar por um cinema marginal, que não é visto, também já não está disponível"
Pedro Bandeira Freire,
em declarações ao PÚBLICO sobre o encerramento definitivo do Quarteto, o primeiro cinema multiplex em Portugal, que fundou em 1975.

O Quarteto fechou definitivamente, depois de um primeiro encerramento imposto pelo IGAC, no final de 2007, por incumprimento dos regulamentos actuais quanto àssaídas de emergência, sistema de detecção de incêndios, presença de materiais inflamáveis e, entre outras coisas, ausência de acesso para deficientes.

Mas Pedro Bandeira, que se confessa desmotivado para continuar, terá de enfrentar o saudosismo dos que querem continuar a ver Lisboa enfeitada por locais outrora frequentados. 400 mil euros é a quantia necessária para restaurar o Quarteto, considerado emblemático, um cinema incontornável na década de 80 e 90, mas que não conseguiu resistir à concorrência feroz de novas salas mais bem equipadas e do pujante mercado de aluguer de DVD.

Rosália Vargas, Vereadora da Cultura, equaciona classificar o Quarteto como espaço de interesse cultural da cidade impedindo que se altere o fim para que foi criado.

Todos os que viram cinema no Quarteto lamentam o seu desaparecimento, mas investir 80 mil contos e classificar o espaço irá ressuscitá-lo desta morte há muito anunciada? A perda de público deveu-se às razões que levaram o IGAC a fechá-lo? É esta a melhor política cultural para Lisboa? Reagir em vez de agir? Preservar o passado que ocupa mais lugar na memória que nas nossas vidas presentes em vez de olhar à volta e dar condições às inúmeras associações que ainda sentem motivação para existir? E classificar o espaço exclusivamente para sala de cinema, sem garantias de viabilidade e auto-sustentabilidade, impedindo outro tipo de empreendedorismo, não irá agravar ainda mais desertificação do lugar?

Gosto do Quarteto, vi centenas de filmes naquelas 4 salas, lamento o seu desaparecimento, mas desconfio que agora seja demasiado tarde para fazer o que quer que seja. Sejamos honestos, as salas do Quarteto há muito que deixaram de ser o melhor local para ver cinema; os ecrãs são pequenos, o som débil, as paredes permeáveis ao filme da sala ao lado. As últimas vezes que lá fui senti-me feliz ao satisfazer a minha necessidade de nostalgia, por recordar outros anos, quando ia lá muito mais assiduamente. Mas investir a quantia necessária anunciada não irá retirar ao Quarteto todas essas características do passado que o fazem castiço, que o fazem ser defendido pelos saudosistas? Irão ao Quarteto os que o defendem agora quando o virem transformado numa moderna e segura sala de cinema, igual a tantas outras? Lembram-se de uma petição contra a extinção do Bife à Café Império que até Carmona Rodrigues, então presidente da CML, apoiou? Os principais promotores da iniciativa foram os primeiros a dizer publicamente que jamais voltariam ao Café Império, depois de desiludidos com o restauro.



Uma última nota, voltando a citar Pedro Bandeira, antes de transcrever a notícia do PÚBLICO:

"Eu fiz o Quarteto no tempo da outra senhora. Hoje não conseguiria. É tudo muito burocrático. Peço uma audiência e ninguém tem tempo para me receber. No passado falava com qualquer director no próprio dia. Até com o Secretariado Nacional de Informação. Nem no tempo do salazarismo isto era tão difícil. Hoje está tudo em reuniões, não se chega a lado nenhum."

As centenas de telefonemas que o Viver tem feito para a CML para saber novidades de processos como a atribuição do pavilhão de madeira da Quinta dos Lilazes ao Lisboa Cantat, as respostas ao documento Alto do Lumiar - que futuro?, ou para questionar mais uma vez a ausência de passadeiras ou do muro da Quinta das Conchas esbarram na esmagadora maioria das vezes em respostas automáticas que podiam ser ditas por um computador: "Não há novidades sobre esse processo, o Sr. Vereador continua a estudar o assunto. Infelizmente não poderá falar com ele ou com qualquer assessor, estão em reunião; tente mais tarde." E tentamos. Mas a resposta é a mesma.


Câmara pondera classificar salas do cinema Quarteto como espaço de interesse cultural
Primeiro multiplex português encerrou as portas definitivamente esta semana por falta de dinheiro para obras de melhoramento que levaram ao seu encerramento em Novembro
23.03.2008, Ana Machado, PÚBLICO

Ainda não há nenhum projecto concreto delineado, mas a vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, Rosália Vargas, disse ao PÚBLICO que a autarquia tem em cima da mesa a hipótese de classificar as salas do cinema Quarteto, o primeiro multiplex de Portugal, como espaço de interesse cultural. Na quarta-feira, o Quarteto fechou as portas definitivamente. Falta dinheiro aos actuais responsáveis para conseguirem cumprir com as melhorias que levaram ao fecho em Novembro passado.

Foi Pedro Bandeira Freire que o fundou em 1975 e foi também ele que, na passada quarta-feira, fechou a cadeado as portas do Quarteto. O espaço, composto por quatro salas, estava encerrado já desde 16 de Novembro do ano passado, altura em que a Inspecção-Geral das Actividades Culturais (IGAC) ordenou o encerramento por falta de saídas de emergência em número adequado, falta de um sistema de detecção de incêndio, pela presença de materiais inflamáveis que tinham de ser substituídos, e ainda pela ausência de acesso para deficientes, entre outras causas apontadas na altura.

A Associação Cine-Cultural da Amadora, a quem o espaço estava subalugado desde 2000, ainda se dispôs a fazer as alterações necessárias para que o espaço pudesse voltar a abrir. Mas até hoje as condições impostas pela IGAC continuaram sem estar reunidas, ao mesmo tempo que a falta de verba para cumprir com todas as exigências legais, e que foram protelando a situação até agora, acabaram por conduzir ao encerramento definitivo.

"Não tenho dinheiro para reabrir e também o meu entusiasmo para lutar por um cinema marginal, que não é visto, também já não está disponível", desabafou Pedro Bandeira Freire, que se refere ao Quarteto como "um símbolo da cidade de Lisboa".

Excesso de burocracia
"Eu fiz o Quarteto no tempo da outra senhora. Hoje não conseguiria. É tudo muito burocrático. Peço uma audiência e ninguém tem tempo para me receber. No passado falava com qualquer director no próprio dia. Até com o Secretariado Nacional de Informação. Nem no tempo do salazarismo isto era tão difícil. Hoje está tudo em reuniões, não se chega a lado nenhum."

A vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, Rosália Vargas, foi uma das responsáveis a que Pedro Bandeira Freire recorreu. Foi recebido, junto com representantes da Junta de Freguesia de Alvalade, que quiseram ajudar: "Estavam indignados. Achavam que aquele espaço não podia fechar." Lá foram todos à audiência. "Mas não mostraram vontade de o recuperar. Também não tenho a lata de pedir a uma Câmara Municipal em má situação financeira 80 mil contos [400 mil euros] para voltar a abrir o Quarteto."

Ao PÚBLICO, a vereadora Rosália Vargas disse que a Câmara de Lisboa não tem dinheiro para comprar o Quarteto: "E nem sei se a família proprietária o queria vender. Também o frequentei. Era como um clube de cinema. Sou sensível a este assunto e é uma pena se se perder o Quarteto. A Câmara de Lisboa gostaria de o preservar, ou pelo menos preservar a sua memória. O que podemos tentar fazer é classificar o espaço como de interesse cultural da cidade, impedindo que se altere o fim para que foi criado. Estamos a ponderar essa hipótese. Mas ainda não estabelecemos negociações."

"Fizeram-se aqui casamentos. Isto diz muito a uma geração. Foi um centro cultural muito importante. As entidades culturais deviam preocupar-se. Em todo o lado do mundo um espaço destes seria preservado. Há até ingratidão para com o Quarteto", diz Pedro Bandeira Freire sobre o espaço que trouxe para Portugal os primeiros filmes de Martin Scorsese, Jacques Rivette ou Jean-Luc Godard.

3 comentários:

Pedro disse...

Completamente de acordo. Estava a pensar que podíamos fazer uma bobina com a colecção de respostas iguais que já tivemos nestes últimos meses e publicá-la no youtube.

Podia não ter tanta audiência como o video do dá-me-cá-o-telemóvel!" mas era um documento tão ou mais importante para definir esta era de assessores de imprensa e secretárias tipo rolha.

Pedroo disse...

"Em todo o lado do mundo um espaço destes seria preservado." Sério??? Porquê? Não há pachorra para estas coisas. Qual é a ideia, obrigar as pessoas a ir ao Quarteto porque "é importante", quem sabe pagando-lhes os bilhetes, e atribuir uma subvenção vitalícia ao Bandeira Freire por ter tido uma boa ideia de negócio há 30 anos? Quanto a mim estas atitudes são contraproducentes -- está-se sempre a relegar para segundo plano coisas que são mais importantes e sobretudo exequíveis -- caso por exemplo das vossas preocupações em que a Alta não se transforme e mais um dormitório. Neste caso, acho que a CML faz muito bem em não ligar grande coisa ao Bandeira Freire. Pronto. ponham lá uma plaquinha a dizer "Aqui foi o Quarteto".

Mr. Steed disse...

Não se pode negar a importância que o Quarteto teve mas a verdade no presente é bem mais cruel. Há pelo menos 15 anos que o Quarteto deixou de ser um cinema aceitável. Não deixam de ter piada estes movimentos de salvação no último momento mas A CML já tem o S.Jorge e o antigo cinema Roma. São geridos mal e porcamente com pouco investimento e sem estratégia. Se não forem entidades externas a alugar as salas pouco mais a CML faz com elas que atraia público. Porque carga d'água é que hão-de acrescentar mais uma sala a este rol? Ainda por cima má e sem hipóteses de algum dia vir a ser um local decente para ver cinema?