sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Retratos de um país de sucesso

Lembro-me de há uma boa vintena de anos não existirem praxes académicas nas universidades. Existia sim uma coisa chamada Recepção ao novo aluno, que procurava dar a conhecer o edifício e suas funções a quem chegava, pretendia integrar estes alunos saídos do liceu numa nova realidade académica, onde muita coisa mudava; disciplinas, dimensão das turmas, necessidade de autonomia de investigação. Integrar um novo aluno era explicar e ajudá-lo a entender o mais depressa possível a nova realidade.

Os anos passaram, e de Recepção ao novo aluno passou-se para a boçal Praxe ao Caloiro. Humilha-se, coage-se, embebeda-se. Não é uma situação de opção para o recém-chegado aluno, ao contrário do que dizem os praxantes. A coação existe, a estigmatização da diferença existe, e quem se opõe a esta forma de integração acaba por sofrer consequências penosas.

As praxes são realizadas com complacência dos conselhos directivos e reitorias, que, coniventes, se tornam culpados por esta escola de pequeninos filhos-da-puta. Alega-se a tradição, mesmo em universidades com menos de uma década de existência.

E como Portugal é um país de brandos costumes, com demasiada gente ainda orgulhosa de ser "doutor", qual novo-rico, as praxes são vistas também com simpatia pela generalidade da população. Acidentes como estes, são azares.

25 comentários:

Joana disse...

E venera-se o número de matrículas como se fosse motivo de orgulho e enaltecimento andar anos e anos a chumbar cadeiras e viver da mesada dos pais.

Super Bock disse...

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Anónimo disse...

Cada um brinca e submete-se às brincadeiras que quer, que são condignas com a sua personalidade e maneira de ser. Nunca fui praxada. Durante esses dias, não ia à faculdade, ou, se ia, era para tratr de asuntos académicos. Mas também não comecei a fumar ou a beber, na secundária, quandor todos o começaram a fazer. Nunca senti que precisava de «alinhar» para ser aceite. Dou-me com todas as pessoas, mas sei quem sou. Adoro brincar, não tenho medo do ridículo (algo que apavora a generalidade dos portugueses que só se atrevem com bebedeiras), mas tenho algum bom senso básico.
No meu tempo, fui madrinha de caloiros, a quem tratei com amizade e, espero, graça. Sem humilhações, era uma brincadeira consentida, combinada, inocente. As nossas acções são reflexo de quem somos. E a ditadura de «ser aceite» parece-me falta de identidade, talvez resultado de demasiado consumismo (ser pelo que se tem) e falta de sentido de respeito, pelo outro, por si.
Claro que qualquer exagero deve ser exemplarmente penalizado. O problema é do relativismo moral e da falta de princípios. Criticar ou rejeitar o que as massas ditam é ser do contra, careta ou marginal.
A Universidade costumava ser uma oportunidade para alargar as nossas escolhas de vida. Talvez os caloiros devessem pensar nisso antes de «serem coagidos» a ser praxados com medo da rejeição. Vive la différence!

Anónimo disse...

No blog -a barriga de um arquitecto-, bem a propósito, num post sobre o que se passou recentemente na Nicarágua, numa performance de ARte:

«Na sociedade do relativismo cultural o grotesco tornou-se uma demanda crítica. De vacas serradas ao meio conservadas em monólitos de fibra acrílica a diamantes encastrados em caveiras humanas, a produção artística contemporânea vive refém das lógicas do seu tempo. A arte tornou-se lugar para a execução de função do gesto estético. Tudo se submete à performance.
Que a arte se tenha de submeter a todo o tipo de degradação é uma triste consequência do desespero em ser visível. Uma arte demitida de qualquer desígnio que não seja a captura de atenção. De tanta pedrada no charco, os “artistas” tornaram-se patéticos denunciadores da hipocrisia alheia. Sob o manto da irreverência e a crítica não resta mais que moralismo seguidista.»

Anónimo disse...

Que raio de foto e esta?

pediste autorizacao a estas pessoas para publicar esta fotografia?

ou e isto parte da actividade civilizada e amigavel que e a praxe?!!!!!!!

Rui Santos disse...

Tira lá a fotografia, sff.
A minha filha é a da direita...

Anónimo disse...

creio que as filhas estao protegidas. E dificil identifica-las e afinal sao as primeiras vitimas. Agora os filhos estao bem pior. Sao faceis de identificar e na minha empresa nao terao nunca lugar!

Anónimo disse...

Tudo tem os seus limites,mas as praxes hoje são uma pratica de meninos sem identidade e tarados por natureza. Quem falou de um geração erasca tinha razão e mais que isso...de meininos sem valor que depois se andam a queixar das propinas e das suas frustações.

Anónimo disse...

Tire a foto ou apresento queixa formal

Anónimo disse...

q medo!

Anónimo disse...

nao tem medo mas devia. publicar fotografias nao autorizadas pode dar-lhe problemas.

Anónimo disse...

Se for ao google e procurar imagens por "praxes" aparece logo esta fotografia.
Eu escolheria outra para ilustrar o post, mas não percebo onde é q está o mal. Se fosse outra foto qq aposto q já não se importava tanto c isso.

Anónimo disse...

Sei eu encontrar a sua filha a dar um linguado no namorado também vou publicar a foto num blog sob o tema: "os jovens hoje em dia beijam-se com a boca toda aberta e com a lingua bem à mostra"

Anónimo disse...

Para já, sou jovem e ainda não tenho filhos. Só acho q está a dar demasiada importância a isto. Bolas! Acha q o Tiago publicou a foto com q intenção?

Tiago disse...

Está alterada a fotografia e protegida a identidade dos envolvidos. Está cumprida a lei. E se agora falássemos das praxes e do representam de incumprimento da lei?

Anónimo disse...

obrigada Tiago
praxes - rituais de transicao
noutros grupos etnicos outros rituais
na verdade creio que tudo da no mesmo. transicao para a idade adulta, pertenca a um grupo
creio que acidentes ha infelizmente em muitas outras situacoes
nunca fui de participar em praxes, respeitei sempre quem nao queria participar (lembro-me de uma colega que veio com os pais para o primeiro dia)
com o tempo estas coisas morrerao.

Tiago disse...

Quando um aluno entra na Universidade, entra por mérito e direito próprio. Fez um percurso académico, estudou, submeteu-se a exames nacionais, e classificou-se para aceder à universidade.

As praxes, ou rituais de transição como lhe chama, não fazem parte deste conjunto de avaliações para aferir a real preparação da pessoa para a vida académica ou profissional.

Todo o tipo de coisas que são feitas nas praxes não são aceites pelas pessoas em mais nenhuma circunstância. E do que conheço das praxes, a maioria dos novos alunos também preferiria passar ao lado do ritual imposto pelos seus colegas mais velhos. E o que me choca não é sequer o conteúdo das actividades, é a presunção de hierarquia que faz os alunos mais velhos sentirem que têm poder sobre os mais novos. É claro que muitos dos novos alunos preferem bloquear os sentimentos de humilhação e sujeitar-se às praxes, com medo das represálias ameaçadas. Preferem passar uma semana em permanente humilhação, preferem fingir para si próprios que os grunhos que os estão a praxar são potenciais amigos, depois de passar aquela semana.

Eu gosto de levar as coisas ao limite, e se já é para mim inaceitável que uma daquelas pessoas se sinta com poderes sobre o meu corpo e a minha vontade, também o seria se ele apenas me quisesse impor um ramo de rosas. O princípio da hierarquia é que está errado, por ser artificial, por ser injusto, e por, como a prática o prova, originar situações aberrantes de interacção entre duas pessoas.

As praxes são violações da dignidade das pessoas, violações psicológicas fortes, assentes num medo comum inerte de afrontar um poder ilegal e inconstitucional.

Eu não sou contra a praxe. Sou contra a praxe imposta. Acho que cada um tem os seus gostos e vontades e devem ser respeitados. Se um jovem entra para a faculdade e o seu sonho nessa primeira semana é levar com merda na cara, beber álcool até ao coma, simular orgasmos ao estalar de dedos de um veterano, ou, como na fotografia que feriu tanto a susceptibilidade de alguns, simular sexo oral numa roda de amigos, é lá com ele. Desde que encontre um grupo de pessoas que o queira fazer passar por isso...

Mas, sou contra que o novo aluno tenha sequer de dizer NÃO aos praxantes. E na verdade, quando os líderes das Associações de Estudantes vêm a público dizer que ninguém é praxado contra a sua vontade, estão a mentir conscientemente. Sabem que o ambiente de coação é fortíssimo, sabem que a estigmatização é enorme. E sabem também que a maioria dos praxados só o é por medo.

Acreditar que isto é um ritual que passará com o tempo é acreditar que as praxes são inóquas, é ser insensível ao abuso que representam as praxes. Contornar as praxes faltando a primeira semana de aulas ou levando a mãezinha para a proteger, é também um forma de aceitar esse poder fictício.

Joana disse...

E se deres queixa na polícia por tortura e coacção não te levam a sério.

Pergunto-me se a Associação de Apoio à Vítima alguma vez terá recebido queixas, também. E se não deveria fazer campanhas assim como se fazem da violencia doméstica, etc.

E concordo com o Tiago que o que está mal é o princípio de hierarquia e não tanto se o que se faz é humilhante ou não. Simplesmente o mandar-obedecer é humilhante.

Acho tb que ha mtas diferenças entre as universidades de província e as de Lisboa e Porto. Talvez só por serem mais, nao sei. Por cá existem movimentos como o MATA que não têm qq expressão em Évora, Coimbra, Covilhã...

Pedro Veiga disse...

A praxe é humilhante e estúpida.

LP disse...

A praxe normalmente só é noticia, quando algo corre mal.

Como em tudo na vida tem coisas boas e coisas más.

É tudo uma questão de bom senso, o problema é que há muita gente estúpida que se aproveita da praxe para se sentir superior e mostrar o quanto é frustrada na vida. Se repararem bem, no mundo "adulto" e do trabalho isso também acontece, só que de uma forma mais dissimulada.

É do meu 1ºano de universidade de que recordo com mais saudosismo! Não pelas praxes em sí, mas pelo grupo de amigos e por tudo o que as praxes me deram a conhecer.

Nas universidades de "PROVÍNCIA" aproveita-se muito mais a vida académica!!

Pergunte a alguém que tenha estudado em Évora ou Coimbra que não tenha gostado dos tempos que lá passou e que não recorde com saudosismo esses tempo. Quem não passou por lá não faz a mínima ideia do que é estudar e viver em cidades com espírito académico e tradições que vão muito para trás. Para quem nunca conheceu o verdadeiro espírito, a praxe será sempre o bicho papão. E as Universidades/Faculdades de Lisboa são tudo menos bom exemplos de espírito académico.



Volto a dizer, como em tudo na vida tem que haver bom senso...

LP disse...

A tradição académica (na qual as praxes aparecem) não são apenas as fantásticas noticias da comunicação social!

Não sou hipócrita ao ponto de dizer que não ocorrem abusos, humilhações e outras coisas do género!

Apenas quer referir que há coisas boas!

Tiago disse...

Car@ IP,

não duvido que existam boas experiências entre os envolvidos da praxes. O meu repúdio não vai para o convívio entre as pessoas.

Terei de me repetir: não acho que uma amizade deva partir de imposições de uma das partes. As praxes vivem muito do ambiente de coação, muito teatralmente encenado nuns casos, que não só permite abusos degradantes como é também uma forma pouco séria e honesta de integrar. Há quem não queira participar nas praxes, mesmo a bem, mesmo as com "bom gosto", e se sente obrigado a isso pelo clima de medo instalado.

Mas infelizmente há quem considere isso menos gravoso do que eu ter colocado aqui a fotografia de de uma praxe, com 6 trogloditas a rir alarvemente de três miúdas que simulavam sexo oral, sem lhes ter tapado a cara.

E lá está: não me choca a fotografia, não me choca sequer o que eles estão a fazer, desde que todos os estejam a fazer sem um mínimo de coação. Alguém me garante isso? Duvido. E volto a um exemplo já dado, mesmo que a praxe consistisse em aceitar uma flor, não me parece um bom princípio fazê-lo prepotentemente.

Francamente, acredito que as praxes representem um dos lados piores que o nosso povo tem. Cobarde, tacanho, com imaginação limitada. Uma aparência de festa que disfarça muito atraso.

Joana disse...

Caro Ip,

Falei de Évora precisamente porque foi lá que frequentei a Universidade.

Anónimo disse...

O problema é que quem se interessa em praxar são os frustrados que por esses dias são uns senhores. E os mais acirrados são os meninos das universidades rascas que devem pensar que andam em Coimbra. Se Portugal fosse qualquer coisa de decente e asseada esta barbaridade era proibida e os prevaricadores sumariamente expulsos. Mas claro, também nisto Portugal é um país muito preocupado com os direitos dos agressores, nunca com os das vítimas.

Mónica disse...

um bando de cretinos