terça-feira, 30 de outubro de 2007

Uma esquina da minha rua

Há uns dias, enquanto a vasculhava um baú mais ferrugento do Arquivo Fotográfico de Lisboa, encontrei imagens da rua onde vivi os primeiros vinte e cinco anos de vida. Lembro-me da minha rua assim, ainda. Lembro-me de a olhar de cima, desde a varanda de um quarto andar, e ver apenas dois carros estacionados. Nessa altura, no início dos anos 80, pouca gente ainda tinha carro. Esta casa de esquina, com um andar, ainda lá estava. Mas foram morrendo uns velhotes, outros regressaram à terra, a casa ficou vazia, foi-se degradando, até que se tornou refúgio de toxicodependentes. Uma noite, começou a arder.

Foi memorável. Gentes em pânico, pessoas dos prédios vizinhos, à janela, de mangueira na mão, imitando o primeiro louco nessa histeria colectiva, procurando conter as chamas sem se dar conta da ineficáfia do método. Outras pessoas, cujas casas não estavam imediatamente em perigo, escondiam com dificuldade a excitação do acontecimento que quebrava a rotina. Entretanto os bombeiros chegaram e o fogo foi rapidamente extinto.

Meses mais tarde a carcaça do edifício foi arrasada e no seu lugar construído um mamarracho horrendo que ainda hoje lá está. Um prédio de cinco andares que reduziu a cinza e memórias aquela esquina de rua para todos os que lá moraram, viveram e passaram antes. Nos afectos de quem conheceu a rua antes, este prédio nada substituiu, antes sendo um corpo estranho e arrogante, um intruso. E ver esta fotografia fez-me sentir um bocadinho mais velho, saudoso, recuando quase trinta anos no tempo, quando os meus pais me iam buscar ao infantário ali perto e no caminho parávamos na mercearia onde escolhia sempre o mesmo chocolate, o das risquinhas, e depois, nesta mesma esquina, onde tinha sido colocado um sinal de trânsito, me divertia a subi-lo, caminhado parede acima.

Um dia, quando o prédio que estreou parte do meu reaccionarismo for abaixo, serão outros os putos a sentir parte de si a morrer, o tempo a passar, o seu bairro a mudar, e farão pequenos balanços de vida.

22 comentários:

Joana disse...

Gosto mesmo destas introspecções, Tiago.

susana disse...

É verdade.

Ainda hoje me ofereceram 2 caixinhas de postais com fotografias do Arquivo Fotográfico das zonas da Madragoa e Mouraria, Memórias de Lisboa, e em todas se constata principalmente a tranquilidade das ruas e o vazio de carros...

Pedro disse...

Pergunto-me se os moradores mais antigos da Alta de Lisboa taambém terão o mesmo tipo de atitude face aos "invasores" da nova urbanização.

Em que medida esta brilhante e racional operação, cheia de boas intenções e competências não será igualmente um mamarracho plantado na esquina das memórias dos seus primeiros ocupantes?

Joana disse...

Isso é com toda a certeza, Pedro. Não sei se foste à exposição das memórias no Parque das Conchas no ano passado, mas era mesmo isso que se sentia qd vias as pessoas a olharem as antigas maquetes, antigas fotos, antigos mapas.

Anónimo disse...

Então meninos não chorem.
Afinal para nos agarrarmos ao ramo seguinte temos de largar o antigo.

A vida é curta e rápida.
Não percam muito tempo com as memórias e o passado. Rapidamente chegam ao lar de idosos e os vossos filhos acharão normal não vos verem.

Porque nós gostamos é do progresso.

A vida é feita de parvoíces :(

Ou queremos ou não queremos, o que fazemos agora ?

Ana B. disse...

Isso é verdade, Joana. Mas do que têm mesmo saudades é das relações. Da pertença. De fazer parte de alguma coisa, das suas referências, das relações de vizinhança, da proximidade... da facilidade de conhecer o vizinho, de poder contar com ele na aflição, de juntar esforços por uma causa.

E isto leva tempo a construir e leva talvez ainda mais tempo a reconstruir.

O bairro muda, como diz o Tiago. As pessoas mudam. E é preciso investir tudo outra vez para semear e ganhar raízes.

Joana disse...

As mudanças são tramadas. Mesmo quando são para melhor. Aqui pelo meu departamento anda tudo de olhos vermelhos pq estamos em fases de mudança, muitos vamos para novos sítios, novos projectos, inclusive a ganhar mais. Mas é inevitável sentir que perdemos alguma coisa e muito é também as relações que temos uns com os outros para lá da profissional. Somos amigos.

Se é assim num trabalho, com relações de 6 ou 7 anos, imagino qd se muda de casa, de vida, de vizinhos. E, ainda para mais, qd esta é imposta. Ainda q seja para melhor, em termos materiais.

Anónimo disse...

já que recordar é viver, pois eu recordo uma rua estreitinha, em coimbra, que desemmboca no já ilustre «quebra-costas» (lugar e bar) - vivi, até aos cinco anos, num apartamento T1+1 (!), de estudante, com os meus pais e irmão, com uma vista soberba sobre o Mondego do alto do nosso 3º andar. E era na rua de sub-ribas (de que junto link com foto, junto à velha muralha e torre de Anto,

http://lusitanianotavel.canalblog.com/images/4262694.img

que brincava às corridas de carros de rolamentos e procurava, entre as pedras da calçada, minhocas para dar de comer ao cágado do meu irmão, acolhido em casa de um vizinho...
Daí gostar tanto do velho largo da Ameixoeira, com um bonito e tratado jardim, de que gostava de ver aqui fotos. Que tal promover esse espaço, tão nobre como o parque oeste ou as conchas?
Obrigada pelo reavivar da SAUDADE!
mafalda

Anónimo disse...

A torre de Anto é justamente na velha «Alta de Coimbra».
Daqui a uns belos anos já teremos memórias desta nova Alta e este blog será um belo arquivo!

Anónimo disse...

Caros,
Em tempos, anos setenta, houve um picadeiro na Alameda das Linhas de Torres. Onde alguns dos adolescentes da zona, a troco de muito limpar boxes e cavalos, lá negociavam uns passeios que exercitavam os animais fora das horas das lições. Pelos terrenos que se estendiam para lá das várias casas senhoriais que ladeavam a alameda, do lado direito de quem vinha do Campo Grande (dos Manteros, e dos Norton de Matos entre outros). Ao fim-de-semana em que não lhes cabia em sorte passear os cavalos, era terreno para passeios a pé, com pique-nique, lanternas, procura das preciosidades que nessas idades se encontram sempre que se nos oferece mato fechado sem cimento por perto. Uma aventura. Onde o barulho de gente e carros não chegava, parecendo Lisboa o que ainda era, coisa pequena. Eram "Os Campos".
Aí, estão vocês.
Do lado oposto da Alameda, então a maior via da zona, onde hoje se abre a Padre Cruz, era azinhaga. E Telheiras, outro nada, "Os Campos de Cima".
Memórias...

Tiago disse...

:) É isso, é isso. Cada um de nós tem a sua esquina, os seu canto, lugares que de repente ficam apenas na memória, que continuamos a sentir e a viver, apesar de já lá não estarem, como um braço amputado.

Anónimo disse...

«(…) as últimas semanas, (…), têm-me obrigado a pensar no passado e no presente e a esquecer o futuro. Sobretudo o passado: (…) porque o futuro se estreita, e digo sobretudo o passado visto que o presente se tornou passado também, recordações que julgava perdidas e regressam sem que se dê por isso, (…)
Quero (…) minha avó viva, quero a casa da Beira, tudo aquilo que deixei fugir e me faz falta, (…), quero ler Júlio Verne, quero ir à Feira Popular andar no carrocel do oito,(…) quero pastéis de bacalhau com arroz de tomate, (…) quero comer percebes, quero fumar às escondidas, (…) quero ler o «Mundo de Aventuras», quero guarda-chuvas de chocolate, (…)»
Quero colar os cromos novos na caderneta, quero comer uma trança de canela no caminho para a escola só de meninas, quero cadernos de duas linhas, quero saltar ao elástico e trautear, ingenuamente, como se ouve na rádio, o «Avante camarada» para horror das filhas do Senhor Louro, quero um estojo de madeira, quero giz para o quadro preto, quero colher uma flor no jardim do canteiro da maternidade para oferecer à minha mãe pelo nascimento da Catarina, tão loura e branquinha,…
«(…) quero um pratinho de tremoços, quero ser Sandokan Soberano da Malásia, (…) quero descer dos eléctricos em andamento, quero ser revisor da Carris, quero tocar todas as cornetas de plástico do mundo, quero uma caixa de sapatos cheia de bichos de seda, quero o boneco da bola, (…) quero ter tempo para ganhar coragem e dizer aos meus pais que gosto muito deles antes que anoiteça senhores, antes que anoiteça para sempre.»
PS: entre aspas, citações da crónica de 15 de Dezembro de 1996, in Crónicas do Público (1996), de António Lobo Antunes.

Pedro disse...

Tiago, onde é que é isto? Não consigo ler a placa da rua

Tiago disse...

Esquina da R. Eduardo Coelho com a R. Ruben A. Leitão, perto de ti.

Anónimo disse...

O Tiago é certamente muito jovem. Há uns anitos era tudo quintas aqui, em benfica, em toda a cintura de lisboa...

Anónimo disse...

Telheiras eram quintas...lembro-me dos primeiros prédios que apareceram, junto à Av. Padre Cruz.
O picadeiro e os passeio a cavalo julgo que chegaram aos anos 80.
A Quinta do Lambert ainda era uma quinta!
Lembro-me de haver um semáforo na 2ª circular, antes de ser construído o viaduto por cima da Santos e Castro. lembro-me de um rebanho de ovelhas atravessar quase diariamente a 2ª circular.
Enfim...tenho 33 anos :-)

Pedro disse...

O picadeiro saiu nos anos 90 e estava onde agora é a entrada para a Quinta dos Lilazes.

Os semáforos da 2ª circular foram eliminados depois de uma série de atropelamentos mortais, entre os quais uma colega minha da faculdade, quando ia atravessar com o sinal verde para os peões...

E haverá moradores de Telheiras que ainda se lembram das promessas feitas pelos vendedores/promotores da EPUL quanto às zonas verdes, aos jardins... Memórias mesmo porque, face à"especulação imobiliária" da empresa pública nunca passaram mesmo de promessas.

Anónimo disse...

essa é que é essa: a alta está muito bem dotada de verdes, já existem dois enormes parques , não é miragem: pena não terem ovelhas a pastar...

Anónimo disse...

essa é que é essa: a alta está muito bem dotada de verdes, já existem dois enormes parques , não é miragem: pena não terem ovelhas a pastar...

Anónimo disse...

Eu ainda fui ao picadeiro da Alameda...
e, na Ameixoeira, lembro-me de um mercado de peixe onde agora é a Escola Primária, do Pastor e das ovelhas a passear por trás do meu prédio,e um poço mesmo ali, abandonado... dos caminhos de terra ladeados de papoilas... só tenho 25, mas já tanto mudou e já tenho tantas saudades.
E lembram-se de, junto ao Museu do Traje, não haver semáforo e estar lá de vez em quando um senhor com a plaquinha a girar ora para o vermelho, ora para o verde??

Anónimo disse...

Que saudades desse senhor com a plaquinha verde/vermelho. Era mesmo outra Lisboa! Continuando pela Estrada do Paço do Lumiar, a urbanização do lado esquerdo era pouca...quase só havia o Ibérico...lembram-se?

Anónimo disse...

há fotos de muita dessa lisboa no arquivo fotográfico, no link indicado pelo tiago neste post. basta pesquisar por lumiar.ele é carroças e 'coches', feiras, ruas e descampados, muita, muita memória a preto e branco que importa revisitar e preservar.