sábado, 2 de setembro de 2006

Grigory Sokolov em Cascais

Retorno garantido no investimento do bilhete. Sokolov não falha, alia o domínio absoluto do métier pianístico a uma depurada e profunda concepção e reflexão artística das obras tocadas. Num dia de inspiração sublime, o concerto pode marcar as vidas dos felizes mortais que o ouvirem.

Segunda-feira, 4 de Setembro, às 21h30m, na Fortaleza de Cascais (Cidadela de Cascais) - Av. D. Carlos I, no âmbito do Festival Rota dos Monumentos 2006.




No video poderão ouvir uma mazurka de Chopin. A peça está dividida em três secções, sendo a primeira e última similares e a central contrastante. Podemos então dizer que a estrutura é um ABA'.

0'00'' - Secção A
1'03'' - Secção B
1'32'' - Secção A'

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Numa estrutura deste tipo, ABA, é frequente A e B serem contrastantes a vários níveis.

Na secção A existe uma melodia tocada na mão direita, horizontal, cujo discurso é lento e prolongado. O acompanhamento, na mão esquerda, utiliza a fórmula do baixo e dois acordes a preencher a harmonia, a três tempos iguais, tipo valsa mas sem o ser. A tonalidade é menor, mais fechada e introspectiva.

A secção B constrasta com a secção A pela mudança de várias características. A saber:

1 - A tonalidade passa de menor, na secção A, para maior, mais luminosa, na secção B. Esta mudança é muito subtil porque apenas mudam algumas notas que alteram as características de modo da tonalidade.

2 - o acompanhamento de baixo e dois acordes em três tempos é disfarçada com algum movimento mais melódico que quebra o embalo hipnótico da secção A.

3 - É introduzida e usada amiúde uma célula rítmica pontuada, incisiva, que traz um carácter marcial a esta secção, contrastando com o lirismo das melodias da secção A.


O momento mágico desta mazurka dá-se na passagem da secção B para a secção A', em 1'31''. Desde 1'18'' faz-se um grande crescendo até atingir o clímax, e nesse preciso momento, ainda antes de terminar a secção B, a melodia da secção A perfura a fronteira e faz-se anunciar ligeiramente antes de tempo. O efeito é catártico.

A partir de 2'38'' a melodia acompanhada passa a ser duplicada, num jogo polifónico que enriquece e dramatiza o discurso. A peça termina com o mesmo motivo apresentado em 0'57'' e 2'03'', mas desta vez em f (forte), de forma conclusiva.


Nunca é demais lembrar: a informação contida numa partitura está para a música como o nosso código genético está para as consequências das opções que tomamos nas nossas vidas. Na música, como no teatro, poucos conseguem dar vida ao texto que abordam. Poucos conseguem passar a fronteira entre apenas dizer o que lá está escrito ou integrar esse papel no seu corpo e alma e, num dia de inspiração, tornar vivo e tão verdadeiro o objecto artístico como misteriosa é a Vida. Sokolov é um desses. Esperemos que segunda-feira seja um dia sublime.

13 comentários:

Tiago disse...

Quem não pode na 2ª, ou quem quer ver o mesmo concerto duas vezes, o que é sempre interessante para comparar a música em função do clima, da acústica da sala, etc, pode ir hoje a Mafra.

http://lazer.publico.clix.pt/artigo.asp?id=157051

Meow disse...

O-o! Tarde demais! Só li isto agora (de qualquer das formas não podia ir). Já sabia que o Sokolov ia a Cascais. É pena não poder ir... Cá espero notícias do concerto que tenho a certeza que vais ver/ouvir!!

Beijinhos

FLG disse...

Ah, se este blog fosse lido por todos os habitantes da região em que se encontra; estou mesmo a imaginar os ex-Musgueira Norte a trocarem a Floribella pelo concerto do Sokolov; e é isto que eu preconizo se não desde 1906, pouco depois disso. "Obrigado por esta valiosa dádiva" Tiago, refiro-me ao Sokolov, claro :)

Abraço!

joana disse...

Então? Como foi o concerto?

sushi disse...

Também quero saber!
Tive pena de não ter podido ir!

Tiago disse...

A primeira vez que ouvi o Sokolov ao vivo, há quase dez anos, tocou Rameau, Beethoven e a seguir Brahms. Na altura achei muito estranha a sonoridade que usara no Rameau, e a maneira quase mozartiana, mais clássica que romântica, de tocar Beethoven. Fui para intervalo algo desconfiado. Na 2ª parte Sokolov erigiu uma verdadeira catedral, com a 1ª sonata de Brahms, o romantismo já assumido, arrebatador. Fiquei rendido e compreendi a opção de som abafado em Rameau. Este concerto foi no Palácio de Queluz, numa sala com uma reverberação terna e cálida. A sala estava repleta, o que ajuda a tornar acolhedor o espaço.

O concerto de Sokolov que mais me marcou foi em Sintra, no Olga do Cadaval, um auditório novo, com uma acústica menos artesanal que Queluz, mas mesmo assim eficaz, há cerca de quatro anos. Sokolov começou com Haydn, passou por Komitas (um compositor arménio) e acabou com a sonata nº 7 de Prokofiev. Foi arrasador. Fiquei durante semanas perturbado e ainda com reacções físicas sempre que me lembrava disso.

A construção do concerto de ontem foi assim também, em crescendo: primeiro uma suite francesa de Bach, depois a sonata "Tempestade" do Beethoven e, depois do intervalo, a 1ª sonata de Schumann.


Mas o espaço do concerto... Uma tenda gigante, daquelas utilizada em casamentos, com uma estrutura de metal que rangia por todos os lados e um plástico a cobrir. A acústica era mentira. Apesar do calor da noite, senti-me gelado por dentro. Não era isto que estava à espera. O espaço importa. A primeira curiosidade da noite seria ver como o Sokolov compensaria a inexistência de reverberação. E o som passava, o que seria aparentemente impossível, mais por mérito do Sokolov do que algum resquício físco do espaço. Já vi verdadeiras catástrofes em salas mal desenhadas. O som passava, mas limitado. Sobretudo quando a comparação é Queluz ou a Fundação Gulbenkian.

E um concerto nestas condições passa a ser estimulante apenas a nível intelectual, para reparar na arquitectura do Sokolov, nos pormenores de articulação, de fraseado, de planos sonoros, mas sensorialmente deixa muito a desejar.

Duvido que o Sokolov soubesse que ia tocar naquelas condições, e lamento que se organizem certames "culturais" com tanta pompa e circunstância e se descurem as questões mais básicas. Quem pensa num ciclo de concertos numa sala daquelas não gosta de música, certamente. Imaginei por analogia, que me era dada a oportunidade de ver jogar o Maradona num campo pelado em vez de um bem tratado relvado. Nunca vi o Maradona ao vivo, e sendo assim até num pelado eu pagaria para o ver jogar. Mas se o tivesse visto jogar várias vezes em relvados, em condições mais fiéis à sua técnica e intenção, jamais pagaria para o ver em más condições.

Respondendo finalmente à boca politicamente incorrecta da Floribella, devo dizer que nestas coisas sou assumidamente elitista. Grunhos há-os em todas as classes. As tias de Cascais que ontem foram ao concerto não destoariam no comportamento de um membro dos Diabos Vermelhos. Ora mexem na mala, abrem-na para tirar qualquer coisa indispensável ao momento sem evitar fazer barulho, enviam mensagens de telemóvel. Não param um minuto. Estavam no sítio errado à hora errada. Já dizia o Michelangeli: "A Música é um direito, mas só para aqueles que a merecem."

Acontece. Gostei muito dos extras. Tocou seis. Sokolov é um homem generoso.

sushi disse...

E com tão boa descrição, foi como se lá tivesse estado...

sushi disse...

Isto os grunhos vão deixando de existir quanto mais para o norte da Europa se fôr.
Só para referir que assisti a um concerto com o pianista chinês Lang Lang num dos canais de Amesterdão e fiquei "overwelmed", não só pela musicalidade do jovem, mas principalmente porque o concerto era ao ar livre, sem tendas, e as redondezas estavam intransitáveis de barcos, bicicletas e pessoas. Para quem chegou tarde como eu, podia acompanhar o concerto através das televisões que os moradores punham à janela. E no meio de milhares de pessoas - muitas com o seu farnel - não se ouvia barulho nenhum. Desgraçado de um grunho bêbado, que lá passou a falar alto sozinho, que ainda andou à porrada porque o pessoal o mandava calar.

Meow disse...

Bem, acho que fiquei esclarecida ;)
Realmente, é pena que quem organiza estes eventos culturais (de alguma relevância, até) não pense em todos os pormenores do espectáculo...

Tiago disse...

Eu só gostava que pensassem pelo menos no mais importante. Não preciso de arrumadores vestidos a rigor, nem de almofadinhas nas cadeiras, nem cocktails no intervalo. Se vamos lá para ouvir música as principais preocupações deviam ser de assegurar as melhores condições possíveis para isso. Se depois ainda houver orçamento para o resto, as almofadinhas e o champagne, então vamos a isso.

Meow disse...

Reformulo a minha frase: é pena que os organizadores não pensem nos pormenores essenciais do espectáculo ;)

joana disse...

Isso parece ser um problema transverssal ao projecto. Puxando a brasa à sardinha deste blog, tb os "organizadores" da SGAL/PUAL não pensam nos pormenores essenciais ao projecto Alta de Lisboa. Cada vez que me lembro daquele comentário do director do PUAL no Público que dizia que a limpeza da zona não era uma prioridade... Até podia justificar a falta de limpeza com falta de dinheiro, falta de recursos humanos, falta de qualquer coisa. Agora, com falta de IMPORTÂNCIA?!

E depois há todos os outros pormenores importantes esquecidos que se vão falando por aqui, claro...

(Desculpem lá a mudança de tema)

Tiago disse...

Muda, muda. No problem. Até podemos dizer que esta treta toda da música e do Sokolov era uma subtil metáfora.