quinta-feira, 6 de abril de 2006

CORRUPÇÃO

Lembei-me dos posts do Tiago referentes às declarações do vereador José Sá Fernandes sobre as tentativas de suborno de que foi alvo e que tão poucas reacções tiveram neste blog, quando li ontem no Público e a propósito da crise na Polícia Judiciária, os diversos casos "melindrosos" que estão pendentes de decisões. (uf! que grande período!)
Relembrando (já que o Público apenas dispõe online para tesos meia-dúzia de notícias):

- Licenciamento do Freeport Alcochete (com a alteração da Zona de Protecção Especial do Estuário do Tejo, de modo a viabilizar o empreendimento, 3 dias antes das legislativas);
- Vale da Rosa / Nova Setúbal (projecto urbanístico a desenvolver na zona oriental de Setúbal; suspeita de tráfico de influências);
- Amadora (suspeitas da existência de uma complexa rede de troca de favores entre políticos e construtores civis);
- Caso Portucale (autorização governamental para abate de 2600 sobreiros; suspeita de tráfico de influências);
- Bragaparques e negócios camarários (negócio Parque Mayer e outras transacções efectuadas ou negociadas entre a CML e a empresa; suspeita de tentativa de corrupção);
- Fuga a impostos / bancos.
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O que torna esta notícia relevante para a discussão urbanística que temos vindo a fazer é a esmagadora maioria de casos ligados ao imobiliário. É pública a percentagem (anormalmente elevada para os padrões europeus)que a actividade imobiliária ocupa na economia portuguesa. Será natural que, gerando tanto dinheiro, a possibilidade de ocorrência de ilegalidades seja maior.

Mas não se sentem a caminhar sobre gelo fino de cada vez que passam por zonas novas da cidade? Não olham sempre com desconfiança para novos empreendimentos?

E de cada vez que vêem um atropelo urbanístico, uma distracção com as regras legais instituídas, uma aparente asneira, não ficam com a muito grande impressão de que um gordo envelope passou de mão num canto escuro de uma garagem pública?

13 comentários:

Tiago disse...

Completamente, Pedro. E continuo a achar que este crimes são muito mais danosos para o país do que a punição que merecem. Talvez pela própria natureza do crime também a justição seja levada por parques estacionamento e malinhas pretas recheadas. Merda de país, é o que é.

Então pessoal, pomos a bandeirinha portuguesa na janela em Junho? É o Mundial, meus amigos, é a nossa selecção!

Tiago disse...

Grande confusão, aquela primeira frase... Queria dizer que são muito mais danosos para o país do que a punição que acabam por ter.

É o que dá dormir 3 horas.

joana disse...

Então? O resultado do benfica deu-te pesadelos?

E será que é por o negocio imobiliário gerar muito dinheiro que é mais propenso à corrupção, ou o contrário? Não sei se se consegue encontrar a causa e o efeito.

Seja como for, devia era haver mais denúncias como a do Sá Fernandes. Às vezes custa-me compreender como é que algumas pessoas conseguem dormir de consciência tranquila. Eu sei que é uma frase bastante ingénua, não precisam de me apontar, mas continuo sem perceber.

Tiago disse...

Não, o Benfica até me deu sono.

Vamos a apostas? A denúncia do Sá Fernandes, grava em video, com provas irrefutáveis, com vereadores implicados, terá alguma consequência? Eu aposto que não. Um péssimo sintoma disso foi o ar ofendido do Fontão de Carvalho a dizer que o pedido de investigação de todos os negócios da BragaParques com a CML, pedido pelo JSF, punham em causa a idoneidade dos 10000 (dez mil) funcionários da CML, desde o o presidente ao paquete a recibo verde.

joana disse...

Então que sugeres? Cruzar os braços? Não denunciar? Mudar de país? O que podemos "nós" fazer mais para além da denúncia comprovada?

Eu acho que tu tens razão, que tudo ficará em águas de bacalhau. Mas para que a máquina burocratica se mexa, para que as coisas cheguem a um ponto em que não seja possível desviar o olhar, acho que só continuando a denúncia atrás de denúncia. É frustrante, mas há outro caminho?

Rodrigo Bastos disse...

epah!...Merda de país? Eu não chegaria a tanto...Portugal têm os seus defeitos e as suas virtudes tal como qualquer outro país do mundo. Corrupção, -infelizmente- todos a teem e a mesma é independente do sistema político vigente.

Há que apertar com a fiscalização e no combate à corrupção e pôr de uma vez por todas a justiça a funcionar. A ambição desmesurada que provoca estes actos é transversal a qualquer país.

Quanto às bandeiras...Existe um grande défice de orgulho dos portugueses em Portugal e isso têm que ser na minha opinião melhorado pois somos tão bons ou iguais a todos os outros.

Tiago disse...

Eu não sugiro cruzar os braços. Sugiro que as pessoas se indignem, falem, denunciem em voz alta esta corrupção. No fundo sugiro que deixem de ser grunhos e gastem pelo menos tanta energia a lutar por um país justo e não corrupto como a puxar pela selecção nacional com as pífias bandeirinhas nas janelas.

Rodrigo, o orgulho em ser português não se mede pelas bandeiras. Mas enfim, como nós por cá achamos isso veio o Pedro Santana Lopes aumentar o numero de pirilaus do parque eduardo vii com aquela bandeira gigantesca. Mas ai de quem disser mal daquilo, está a atentar contra a pátria!

Ana Louro disse...

Eu indigno-me, mas infelizmente sinto-me impotente para mais. O que fazer? O caso do Freeport foi mais uma batalha perdida de um dos movimentos a que orgulhamente pertenço, embora não me orgulhe da forma como tem perdido as guerras por alguma falta de cooperação e não só.) Quanto às bandeiras acho que não é por aí que se define o interesse pela pátria. Não pendurei nenhuma nem o farei e isso não quer dizer que não "apoie" a selecção, mas não faço disso o meu escape do dia-a-dia.
Quanto à corrupção o que dizer quando um governo quer alegadamente controlar a PJ?
E apesar de tudo Portugal ainda é um belo país (ainda por cá estou).

Rodrigo Bastos disse...

Tiago,

Claro que o orgulho não se mede pela bandeira Tiago, não quero ser assim tão ligeiro e se assim fosse eu tb seria um dos "não orgulhosos"...

Porquê criticar um acto que acabou por ser de certa forma espontaneo, positivo e que não fez mal a ninguém? Não está aqui em causa quem colocou ou não colocou bandeiras (não é uma questão de moda). O que está em causa é que os portugueses teem de ter mais orgulho no seu pais, participar mais activamente (cidadania) no mesmo, ter mais confiança nas suas próprias capacidades e potêncialidades como povo e de uma vez por interiorizar que isto não é um "país de sargeta" como muitas vezes se dá a entender. Há povos melhores tal como os há piores...Foi aqui que nascemos...é isto que temos e é isto que deveremos tentar mudar.

Reforço o que disse em termos internos....mais fiscalização, um combate à corrupção mais eficaz e arranjar de uma vez por toda a confusão que é a nossa justiça. Junto outra coisa que nos falta muito que é transparência na politica, nos processos de gestão, concursos públicos, etc...

Concordo com o que a Ana disse: "Quanto à corrupção o que dizer quando um governo quer alegadamente controlar a PJ?". A nossa classe política têm de mudar e muito rápidamente...

Tiago disse...

Rodrigo,

não se trata de fazer bem ou mal a alguém. Chama-se snob ou pedante, se quiseres, mas há qualquer coisa nas exaltações histéricas que temos tido que me dá a sensação sermos um país de diletantes, de patetas alegres. Lembro-me de Timor, por exemplo. Alguém fala de Timor agora? Alguém faz ideia de como se está a viver agora por lá? Pior do que há 10 anos, sabias? E eu fui um dos que andei na rua a gritar à frente das embaixadas. Mas até aí vi cenas degradantes como a de um rapaz que queria chegar à maternidade Alfredo da Costa, tinha a mulher à beira de parir dentro do carro, e queria passar pela multidão que se aglomerava em frente à ONU. Como não o deixavam passar, porque "se estava a lutar por Timor", o rapaz começou a enervar-se. Acabou por ser espancado sob insultos de "indonésio" e o carro vandalizado. É este orgulho português, estas manifestações "espontâneas" de grande fraternidade que dizem fazer de nós um povo especial que me dão a volta ao estômago.

E acho que o país não precisa de um psicólogo, de palmadinhas nas costas e palavras de incentivo. Precisa de rotinas, de método, de disciplina de trabalho. Precisa de inteligência, de conhecimento, de valores. E isso está a ser descurado pela escola, a nível científico, e pela família, a nível da formação cívica. É preciso mais tempo para as pessoas, e para isso acontecer são necessárias cidades melhor organizadas que não façam as pessoas perder tempo em deslocações, empresas mais eficazes que não necessitem de trabalhadores 8 hora com níveis de produtividade baixos.

Voltando ao futebol, tens o exemplo do Mourinho. Quem está de fora diz que ele é sobretudo um bom psicólogo, um gajo porreiro que induz os jogadores a pensarem que são os melhores do mundo. E esquecem-se de toda a revolução metodológica que ele tem operado ao nível do treino de equipa, da preparação exaustiva que faz, do conhecimento profundo do adversário seguinte que o condiciona no treino ao longo da semana. E sim, diz ao jogadores que eles são muito bons, mas eles aprenderam na prática que o são porque fazem por isso, não apenas por uma hipnose psicológica.

Agora se me dizes que há povos melhores e outros piores é que me assusta. Achas que isso é questão determinista? Não acreditas no condicionamento, não estás convicto que o povo é aquilo que quiser ser? Eu acho que si, leva é muito tempo. Demasiado, infelizmente. Mas a cena das bandeiras, a meu ver, não ajuda nada. É areia para os olhos. Pão e circo. Como foram as manifestações por Timor.

Quanto ao resto que dizes, ao combate fiscal, à transparência de processos, à independência e justiça da Justiça, estamos de acordo.

O que eu dizia é que a malta só se mobiliza em manada e de forma ébria. E nunca pelas questões estruturais. Vês manifestações à porta da PGR? No Tribunal de contas? A exigir prisão aos corruptos, penas pesadas para os que lesam a Pátria? Não. Porque a Pátria passou a ser palmadinhas nas costas, psicologia barata, e o orgulho demonstrado pela bandeira.

E vez alguma coisa ser feita nas eleições para que "a classe política mude muito e rapidamente"?

Tiago disse...

E como não gosto de mandar piadas que não são minhas, e como às vezes não se percebe a referência, aqui fica a descrição de Pirilauland.

Pedro Veiga disse...

Sim, Portugal tem as suas qualidades! Um bom exemplo: vão até à Fundação Calouste Gulbenkian ouvir a última versão da Paixão segundo S. Mateus de J. S. Bach. Ouçam com atenção a riqueza das vozes portuguesas que não ficam nada atrás das vozes estrangeiras! Para além do mais esta versão dirigida pelo M. Corboz é a melhor que já ouvi! Sublime! Ainda estou a ouvir mentalmente esta obra. Ajuda a manter um bom passo na rua e anima qualquer espírito mais sombrio!

ana disse...

Tiago
Entao em Timor vive-se pior agora?
Quando alguem e livre pode sempre sonhar e lutar por aquilo que quer para o seu pais.
Olha o que se discutiu ate aqui neste post. Tudo fruto da liberdade de um ou mais cidadaos.
Quanto ao nosso pais. Ja a minha avo dizia: Nao digas mal do nosso pais, e um pais tao lindo! Uma mulher que viveu exilada porque o marido era contra o regime. E que nem sequer se atrevia a chamar a um utensilio de cozinha: Salazar!
A nossa democracia esta na primeira infancia. Temos que lutar para que o sistema judicial seja autonomo do politico e mil e uma outras coisas.
Mas nao nos devemos abater pelo tamanho da tarefa. Gosto de pensar na historia do David e do Golias, que um aluno meu minusculo passa a vida a dramatizar.