terça-feira, 21 de março de 2006

Jardins para ver



Na Expo Sul, numa das inúmeras urbanizações que estão a ser construídas, vi este jardim. Os prédios têm as traseiras voltadas para este espaço verde, enquanto parte das ruas são becos sem saída, para as tornar mais sossegadas sem o trânsito automóvel de circulação. Uma medida inteligente já feita também em Telheiras.
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Mas este jardim que fica no centro dos vários empreendimentos ilustra bem o que temos vindo a discutir acerca das características que levam as pessoas a frequentar espaços verdes. É um jardim bonito, dá gosto ver (nos tempos que correm basta ver clorofila para uma pessoa se sentir mais calminha de tanto ruído e poluição), mas é difícil ficar por lá. Não há bancos, com ou sem encosto, e a área relvada tem este pormenor sádico de ter uma inclinação de 45% para desconvidar os transeuntes. É uma maneira subtil de não pôr as vedações à volta da relva que marcavam os jardins de Lisboa há mais de 20 anos, mas continuar a impedir o usufruto da relva.

O problema é que como ninguém por lá fica, como não há crianças a brincar na relva enquanto os pais se sentam nos bancos a ler ou apanhar sol, os donos dos cães podem adiar a consciência cívica para outra altura.


6 comentários:

O.Pina disse...

Pois.
Reflexos de tanta outra coisa, como a lixarada atirada das janelas e pelos transeuntes para o chão.
Educação.. há que meter os portugas na escola, ao canto das salas, milhares delas, com orelhas de burro, como pinóquios.

Os jardins sem bancos falam de uma certa corrente paisagistóide, oportunista e algo tirana que defende que sem bancos (e outros excedentes como bebedouros) há menor propensão para a gandulagem: é simples a lógica - sem apoio e sem foco de interesse o marginal fica sem alvo. É como acabar com as paredes: nunca mais aparecem graffitis.

joana disse...

Pois, essa corrente urbanista algo tirana, tem um nome. Na altura da discussão dos bancos sem encosto e desconfortáveis, não me lembrei. Mas depois, na minhas buscas, deparei com o termo "design against crime".

Pedro disse...

Disseste "design crime"... Joana?

joana disse...

Sim, "design against crime". Baseia-se no princípio da redução de oportunidades em cometer crimes, através do design preventivo. Há coisas giras e interessantes, tipo esta cadeira de café (http://www.csm.arts.ac.uk/images/dac_chair.jpg). E depois há o mesmo conceito aplicado ao mobiliário urbano e traçado de ruas, etc. Por exemplo, o exemplo que o Tiago dá no post, das ruas sem saida, tornam tudo mais calmo e também impossibilitam circuitos de corrida de motos, carros, em torno dos quarteirões, por exemplo. Há coisas que me parecem ser uma boa/interessante "approach" à criminalidade e que realmente torna os locais mais seguros e faceis de viver. O conceito para a concepção de qualquer coisa é pensares que tens dois "clientes": "user" e "abuser". E desenvolveres o design que encaixe os dois. O que eu penso que muitas vezes se passa na prática é que se pensa só em "abuser" e o "user" que se lixe. E o design das coisas passa a não dar para um nem para outro. É desconfortável, faltam comodidades, etc.

Pedro disse...

Os urbanistas da CML dos anos 30/40 eram mesmo vanguardistas! O bairro de Alvalade está cheio desses "cul-de-sac" impeditivos de percursos corta-corrente.
O que se perdeu com a liberalização dos loteamentos!...

joana disse...

Por acaso quem me falou que o conceito de pracetas era para impedir esses percursos foi um velho tio meu que vivia em Alvalade desde os anos 40. Deve ter sido a ideia que lhe passaram quando comprou a casa.

Já não se inventam conceitos novos!