quarta-feira, 22 de março de 2006

Tempo

Encontrei aqui, entre bites e bytes desarrumados no meu antigo computador, um pedacinho de música que não resisto a partilhar convosco. É uma gravação do concerto do Scriabin por um pianista russo da primeira metade do séc. XX, Samuel Feinberg. Um poeta da música. Oiço-o e constato que naquele tempo, não havendo ainda a criação de "génios" em massa, virtuosos atletas, havia uma multiplicidade de personalidades artísticas muito mais rica que agora. Talvez por não haver registos sonoros, por não haver forma de comparação, de aculturação global, cada músico seguisse o seu rumo de forma mais livre, mais espontânea. Feinberg tem essa naturalidade de quem faz música como se esta estivesse a nascer naquele preciso momento. Reparem nas oscilações da pulsação, ora mais rápida, ora mais lenta, oiçam a forma como desenha as frases que diz, mostrando tantos estados de espírito diferentes em tão pouco tempo.

[aqui jaz um excerto de música]

O excerto é muito antigo, daí o "fritar" do som. Nestas coisas é preciso espírito aberto, não querer comparar com as maravilhas da tecnologia actual. Oiçam o mestre como quem observa uma obra de arte a precisar de restauro mas fiel à genialidade inata.


Bem, agora podia relacionar isto com a forma de se fazer cidade hoje em comparação com há 50 ou 100 anos atrás. Podia, para encaixar isto num blog temático que se dedica à vida das cidades, mas não o faço agora. Deixo para depois, pode ser?

5 comentários:

david disse...

Penso que até faz mais sentido ouvir com o som tal como está. Bom começo de tarde este.

Tiago disse...

Aumenta a sensação de ser de outro Tempo, não é? Mas eu gostava muito de poder ouvi-lo com melhor qualidade sonora, tipo viajar no tempo e dar um salto a Moscovo nos anos 30. Devia ser excepcional! (não continuemos esta discussão pela parte política, a minha máquina do tempo tem um botão anti-purga stalinista)

Há uns poucos de anos conseguiram fazer isso com umas gravações do Rachmaninoff, feitas em piano de rolos. Eu já sabia que era uma dos mais geniais pianistas de sempre, mas com estas gravações tudo ficou mais brilhante. Claro que como em qualquer restauro começamos a questionar qual é a fronteira entre a criação original e a mão do restaurador.

Pedro disse...

O politicamente correcto aplicado à música. O que referes acerca do som actual ser mais "homogéneo" talvez seja consequência da pureza calvinista da "nova música antiga" não?
E será que não haverá também um dedinho das grandes editoras musicais? (Se bem que a esmagadora maioria das pessoas - a começar por mim - não consiga distinguir um Kempf dum Sokolov...)
Quanto à arquitectura: eu penso que a evolução é a mesma - a n.m.a. aplicada à construção deu num purismo de formas que se transformou em poupança de materiais. Os "caixotes" começaram por ser peças depuradas, avant-garde, radicais, contestatárias - e hoje são deprimentes manifestações do gosto vigente.
Sim, antes uma gravação com chiadeira nas avenidas novas do que uma banalidade com som 3d nos bairros periféricos da cidade...

Tiago disse...

Falando da música, acho que a homogeneização vem sobretudo por os objectivos terem passado a ser a perfeição inicialemnte só conseguida pelo copy paste do estúdio. Tenho a certeza que existem hoje muito mais músico irrepriensíveis tecnicamente do que há 50 anos atrás. Então há 100 anos nem se fala. Por outro lado, como a aposta em concerto ao vivo passou a ser o tocar sem notas erradas e muito rápido, descurou-se a personalidade musical de cada um. Felizmente há excepções, mas depois de ouvir um a 3ª sonta de Chopin pelo Pogorelich ou a 7ª de Prokofiev pelo Sokolov é difícil engolir um pianista tipo "franchising" a fazer o óbvio.

As gravações trouxeram esse impossível do virtuosismo infalível, matando a espeontaneidade, matando a emoção do erro. (Um dia mostro-vos uma passagem do Emil Gilels, com ele a espalhar-se ao comprido, mas sem perder um segundo de emoção e energia). Terão trazido também a manipulação de estúdio do som, que nos dificulta depois a fruição do concerto ao vivo. Mesmo assim, um concerto genial (com muito poucos ouvi na minha vida, menos de meia dúzia) é insubstituível. É um momento único, irrepetível, e nenhuma máquica consegue ainda captar na totalidade o som que é produzido ali. O momento de magia também não, obviamente.

As cidades passam pelo mesmo, como tu muito bem disseste.

C_mim disse...

Viva

Vim aqui para e gostei. Conheço bem a zona do Lumiar / Paço do Lumiar /ameixoeira e agora é por esses lados que Lisboa tá em alta... Depois de telheiras...