terça-feira, 18 de março de 2008

Carta de António Brotas a Manuel Salgado

Assunto: Encontro de ontem na Sociedade de Geografia e intervenção na Televisão.

14 de Março 2008


Caro Arquitecto Manuel Salgado,


Ouvi-o ontem falar na Televisão de três questões com grande importância para o urbanismo de Lisboa e que terão de ser tidas em conta no seu planeamento, a saber:

a questão da ponte rodo-ferroviária para o Barreiro, o encerramento do Aeroporto da Portela e a ligação da linha de Cascais à linha da cintura.

No que diz respeito à ponte para o Barreiro é uma obra que não está decidida. O Governo mandatou o LNEC para fazer o estudo comparado das travessias para o Barreiro e para o Montijo, esta por ponte ou tunel. Uma e outra são obras com elevadíssimos custos financeiros e ambientais (maiores no caso do Barreiro) e uma coisa é certa: a travessia ferreoviária do Tejo só pode ser decidida quando, simultaneamente, for decidida a entrada em Lisboa dos futuros TGV para o Porto.

Ora, há 3 anos, dizia-se que a ponte para o Barreiro serviria para os TGV para o Porto, que voltariam a atravessar o Tejo perto de Vila Nova da Rainha para passarem perto da Ota e depois seguirem para o Norte . Mas viu-se que, por este trajecto, os TGV levariam possivelmente mais tempo que os actuais comboios pendulares. Pensou-se, depois conjugar a ponte para o Barreiro, destinada só aos comboios para o Sul, com uma entrada a Norte de Lisboa, pelo vale de Loures, para os TGV para o Porto. Mas esta solução, defendida durante uns tempos, foi posta de lado porque, além de caríssima, obrigava a constrir 10 km de novas linhas de bitola europeia no interior de Lisboa, em viaduto, à superfície ou em tunel.

Julgo que a solução actualmente defendida pela Secretaria de Estado dos Transportes é a seguinte: os comboios de bitola europeia vindos do Sul pela ponte do Barreiro virarão à direita e seguirão por um viaduto com cerca de 4 km até um anexo a construir ao lado da actual estação do Oriente. Os TGV para o Norte partirão desta estação e seguirão pelo vale do Trancão para a Ota e depois para o Porto. Se este projecto vier a ser construido terá um muito negativo impacto ambiental para Lisboa. Penso, no entanto, que o seu estudo está numa fase inicial e pouco mais é, por ora, de um muito vago projecto. O Ministro das Obras Públicas já disse, aliás, que a passagem dos TGV para o Porto perto da Ota terá de ser repensada.

No caso da travessia pelo Montijo, destinada unicamente a comboios de bitola europeia, o estudo das duas hipóteses, por tunel e por ponte, ambas muito caras e com problemas técnicos dificeis, está também ainda numa fase embrionária. Deve, no entanto, ser sublinhado que esta solução pode ser usada para os TGV para o Porto, que, depois da travessia do Tejo podem seguir pela margem esquerda até perto da Chamusca O impacto ambiental sobre Lisboa é assim muito menor.

Estes assuntos foram amplamente debatidos num encontro, ontem, na Sociedade de Geografia de Lisboa, em que participaram 5 professores do Técnico, e em que eu apresentei a proposta de uma travessia perto de Alverca. Se esta solução for possivel, será incomparavelmente mais barata, mais facil de construir, mais operacional, e com menos danos ambientais do que qualquer das outras.

No que diz respeito ao Aeroporto da Portela, é certo que este aeroporto continuará em funcionamento durante mais uma ou duas décadas. Entretanto, será construido por fases o aeroporto de Alcochete. Só daqui a uns dez anos será necessário decidir se a Portela virá a ser encerrada, ou se continuamos com os dois aeroportos. A discussão agora deste assunto é uma pura perda de tempo porque não conhecemos as condições que se verificarão no futuro e porque agora não pode ser tomada nenhuma decisão.

Com respeito à ligação da linha de Cascais à linha da cintura, será uma obra a ponderar. Mas muito mais util teria sido o prolongamento da linha vermelha do metro para o lado de Sacavém, como esteve previsto. Era também conveniente que esta linha fosse à estação de Campolide, em vez de ir ao bairro de Campolide, e era importante que descesse a Avenida de Ceuta. Esta última possibilidade parece-me estar ainda em aberto. O metro nesta avenida, que vai ser urbanizada, é muito importante para os seus futuros habitantes. Com escadas rolantes pode ainda servir as traseiras do bairro de Campo de Ourique, contribuindo assim para a dignificação da zona.

No encontro de ontem na Sociedade de Geografia, não esteve nenhum responsável, nem nenhum técnico da Câmara de Lisboa. Penso que será util , no futuro, que as pessoas que se interessam por este tipo de assuntos se possam encontrar com alguma frequência, que mais não seja para trocarem opiniões e transmitirem informações que detenham.Terei todo o gosto em participar em encontros que a Câmara eventualmente organize.



Com os meus melhores cumprimentos, subscrevo-me

António Brotas
Professor Jubilado do IST

Coordenador de uma equipe universitária que, em 1988, concorreu à elaboração do PROTAML


[recebido por email]

4 comentários:

Pedro disse...

No que diz respeito ao Aeroporto da Portela, é certo que este aeroporto continuará em funcionamento durante mais uma ou duas décadas. Entretanto, será construido por fases o aeroporto de Alcochete. Só daqui a uns dez anos será necessário decidir se a Portela virá a ser encerrada, ou se continuamos com os dois aeroportos. A discussão agora deste assunto é uma pura perda de tempo porque não conhecemos as condições que se verificarão no futuro e porque agora não pode ser tomada nenhuma decisão.

E pronto. Durante pelo menos mais dez anos vamos continuar a ter "plane watching" mesmo ao pé da nossa porta.

Pedro Veiga disse...

Jamais iremos necessitar de 2 aeroportos porque a conjuntura económica não irá sustentar um luxo desta ordem. Por isso, é provável a desactivação da Portela visto que o novo aeroporto estará mais adaptado aos novos super aviões usados nas grandes rotas intercontinentais.

Pedro disse...

Pedro, "jamais" é uma palavra que o senhor ministro das obras públicas & etc demonstrou não dever ser utilizada... ;-)

Abraço.

pelicano disse...

Ó Pedro deixa-te de tretas, como deves saber nunca irá existir um aeroporto em Alcochete. Os terrenos do denominado Campo de Tiro de Alcochete ficam nos concelhos de Montijo e Benavente. O ministro teve uma sorte do caraças quando disse Alcochete Jamais, acertou sem querer. Agora tu Pedro não és ministro, por isso deves saber o mínimo de geografia para saberes que o novo aeroporto nada tem a ver com Alcochete. Por outro lado deves também saber que o Montijo não passa de um baptismo de secretaria, porque a verdadeira designação do local é Aldeia Gallega do Ribatejo. Mas esta história da perversão da designação dos locais, já é bem conhecida de todos, tendo inclusivamente alguns seguidores aqui no Lumiar.

ALTAmente Pedro.

Boa Páscoa