terça-feira, 10 de abril de 2007

Quem pode discutir arquitectura?

Das cavernas à Alta de Lisboa, passando por palhotas e barracas, a arquitectura surge como um passo em frente na construção da habitação, podendo acrescentar um lado artístico à função primordial de servir as pessoas, abrigando-as, dando-lhes melhor qualidade de vida. Este conceito alargou-se da necessidade primária de protecção ao deleite estético que um edifício ou arruamento pode provocar.


Quando se fala em arquitectura sustentável compreende-se a capacidade do edifício se integrar em simbiose com o meio ambiente, aproveitando os recursos naturais disponíveis promovendo conforto térmico, qualidade do ar e iluminação, reduzindo o consumo de energia eléctrica, ainda demasiado dependente de combustíveis fósseis, poluidores e finitos, utilizando também na sua construção materiais duráveis que minimizem os custos inerentes à manutenção.

O compromisso entre a opção estética e o nível de sustentabilidade é o grande desafio que a arquitectura tem hoje em dia, quando se fala mais do que nunca na necessidade de poupar recursos e proteger o planeta.

Mas se erudição da arquitectura está reservada a poucos, importa saber se é legítima a crítica e avaliação da fruição e vivência das casas pelos que as habitam, mesmo sem a propriedade académica de um arquitecto.

No país europeu com maior exposição solar, faz sentido substituir os estendais por onerosas máquinas de secar roupa? É irrelevante que à magnífica e desafogada vista proporcionada por janelas com a dimensão de uma parede, não se tenha em conta as consequências de uma exposição solar intensa nos meses mais quentes omitindo do projecto qualquer solução passiva como estores ou toldos e se apresente como solução de recurso o AC? Ou que por inacessibilidade exterior dos vidros se proponha a contratação de uma empresa de limpezas especializada aumentando assim os encargos dos moradores? A opção estética na utilização de materiais de desgaste rápido ou facilmente vandalizaveis é independente do contexto urbano e económico onde o projecto se insere?

É possível resolver uma equação onde estética, conforto e sustentabilidade tenham todas valores elevados?

A vontade de um homem deve sobrepor-se à vontade da comunidade? Estará esta dialecticamente preparada para o debate? Pode a arquitectura aprender alguma coisa com as opiniões do seu público, ou, pelo contrário, a opinião leiga é perniciosa ao seu desenvolvimento? É arrogante, presunçoso e desrespeitador para com o arquitecto ou urbanista verbalizar estas questões? E já agora, como pode a comunidade leiga aprender com a arquitectura? Com a visita aos espaços projectados fazendo-se acompanhar da leitura das memórias descritivas correspondentes?

É este o debate lançado no Viver.


Defesa de Howard Roark, em The Fountainhead, de King Vidor.

6 comentários:

Anónimo disse...

A vontade do homem NUNCA deve sobrepor-se à vontade da comunidade. Urbanistas e Arquitectos devem trabalhar para o bem comum e não para projectos que lhes encham o ego e que os resultados práticos (estética, conforto e sustentabilidade) sejam nulos.
Se fazer arquitectura é "perceber" que deviamos manter estendais devido ao nosso clima, não fazer vãos sobredimensionados sem qualquer protecção de sombreamento e ter fácil acesso para limpeza de janelas......então todos podíamos ser aspirantes a arquitectos.O que não pode nunca acontecer é que os "verdadeiros" arquitectos cometam estes erros que são tão perceptiveis a qualquer leigo na matéria.
Tem de haver mais diálogo, sem dúvida.............
E tem sobretudo de se deixar de olhar somente para o umbigo.
Marta

Anónimo disse...

É que até há roupas que não devem ser colocadas no secador de roupa. Para mim, um arquitecto esquecer-se de que é necessário um local para estender roupa´, em especial num clima como o nosso, é sinal de falta de competência. Os arquitectos deveriam ser obrigados a "estagiarem" uns dias nas casas que projectam. E já agora deveriam fazer-se acompanhar pelos restantes projectistas (engenheiros...já reparam quantas vezes as tomadas e interruptores estão mal colocados? já reparam quantas vezes uma casa de banho tem má ventilação ou tem uma ventilação que, no Inverno, rouba o aquecimento à casa? já repararam ...).
A verdade é que não é só na arquitectura, na engenharia. É sempre necessário avaliar e aprender com o que se faz. Aceitar os erros e com eles aprender é sinal de superioridade.

Anónimo disse...

É sempre mt fácil desenhar uma casa, quando depois não se vai viver nela.

Passem lá uns dia em minha casa, srs arquitectos e srs engenheiros, e depois vejam bem as consequencias das vossas escolhas.

Aprendiam mt mais do q reuniões de eruditos e poesias malucas.

Vivam mais a realidade e menos a utopia, meus caros.

Pedro Veiga disse...

Estes arquitectos não fazem ideia do que é projectar uma casa tendo em atenção as condições climatéricas ou o local da habitação. O resultado está à vista. As varandas, quando existem, são transformadas em estendais de roupa. As janelas sem estores tornam impossível a habitabilidade das divisões durante os meses mais quentes, por isso acabam por ter que ser ornamentadas com caixas exteriores, solução que não sendo muito bonita acaba por ser a única possível para evitar os 40º C dentro de casa!

sushi disse...

É por estas razões que cada vez tenho menos orgulho em ser arquitecta.

Doi-me cá dentro assistir aos crimes arquitectónicos a que o cidadão comum tem de estar sujeito, em prole de uma chamada Boa Arquitectura feita por arquitectos que tiveram alguns rasgos de genialidade e a partir daí passaram a ser os Budas da Arquitectura.
Como seja, uma máxima que ouvi em tempo: tudo o que se faz na Holanda é para copiar! Realmente tenho visto pequenas Holandas espalhadas por este país!

Claro que os leigos cidadãos comuns têm direito à sua opinião sobre os espaços que habitam, o que não quer dizer que tenham sempre razão!
Mas também é claro que o Arquitecto também irá defender a sua obra, o que não quer dizer que tenha sempre razão!

Por isso o que para mim falta nesta profissão é Humildade para se reconhecer os erros que se cometem.

Susana

Anónimo disse...

A acrescentar ao que já foi aqui comentado fica esta reflexão
À frente de um projectista (arquitecto , engenheiros de várias especialidades) está o dono de obra que é o cliente e simultaneamente o promotor. Este tem obviamente o papel crucial.Embora o mercado é que regule.E se este último vende assim mesmo sem estendais, sem as proteções solares, com pouco conforto térmico.Como ao promotor ninguém inspecciona temos que ser nós,Cliente final,a exigir, a excluir e optar por outras opçoes.Digo-vos por exper`^encia pp que mtos projectistas sentem-se frustados com o trabalho final por não corresponder à melhor solução mas sim ao que permite ao Promotor, poupar em àrea , em equipamentos, em licenças e em muitas outras coisas.
Isabel