quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

O urbanismo dos pequeninos

No ATL do Centro Social da Musgueira foi proposto a crianças de oito anos desenhar a cidade que fariam se fossem Presidente da Câmara. Puseram-se as crianças a "fazer cidade", como agora se diz muito, e o resultado, em maquete, foi este:


O único prédio é o hotel da Aldeia do Max (mascote do ATL do CSM). As casas são térreas, o comércio é de proximidade, talhos, minimercados, frutaria, restaurante. Existe uma rua de circulação exterior, com pequenos becos de acesso à zona residencial, tornando mais sossegado o bairro. É fantástico como miúdos de 8 anos percebem intuitivamente o que Corbusier e seus seguidores doutrinaram na Carta de Atenas há mais de 60 anos. Este sistema de ruas e becos é visível nos bairros de Alvalade e Olivais, por exemplo.

Denota-se nestes pequenos urbanistas, mesmo assim, uma cerca aculturação à realidade portuguesa, mas, por outro lado, um enorme potencial para o desempenho da missão autárquica com a inclusão da inevitável rotunda.


Compare-se agora este conceito de urbanimo com o recentemente inaugurado Bairro de Calvanas, onde as todas as ruas têm circulação, onde comércio não foi contemplado, promovendo mais uma vez a utilização do automóvel nas deslocações em detrimento da pedonalidade. Mais uma vez a individualização da cidade, a marginalização do espaço público, com o consequente empobrecimento social e humano da população.

9 comentários:

Pedro disse...

Não me parece que isto tenha alguma coisa a ver com as ideias do Le Corbusier. Ele preconizava a separação total entre vias para automóveis e peões, e entre zonas residenciais, de trabalho e de comércio. E nada de comércio de proximidade, muito menos casas térreas. O Le Corbusier foi uma influência maléfica, parece-me. O exemplo que dás de "rua exterior com becos de acesso à zona residencial" parece-me mais próximo do que acontece em Alvalade, uma linha também racionalista mas com raízes em concepções anteriores à do LC.

Tiago disse...

Pois, não estava a relacionar o Corbusier com as casas térreas mas com a ideia das ruas em beco. Pensava, do que li sobre os Olivais naquele livro que me aconselhaste, que o modelo era do Corbusier. Tenho que arranjar mais tempo para não dar estas calinadas.

Ponto Verde disse...

Lamentável

Pedro disse...

Estou longe de ser um especialista, mas parece-me que o conceito dos Olivais Sul, sim, tem a ver com o Le Corbusier e com a tal separação entre circulação pedonal e automóvel e a construção em altura separada por espaços verdes. Mas as coisas não são assim tão simples, suponho, porque aquilo foi sendo feito ao longo de décadas. Em Alvalade ainda é 'pior' -- p. ex. a Av. EUA não tem nada a ver com a primeira fase, à volta da Av. da Igreja. Bom, mas o que me parece importante é que há hoje em dia um certo consenso em que as cidades funcionam melhor se houver uma certa 'confusão' entre entre comércio, habitação e trabalho -- que é o modelo 'espontâneo' das cidades europeias -- em vez do modelo modernista de cada coisa para seu lado. Se bem que não sei se há grandes tentativas de recuperar o modelo tradicional, em quarteirões com comércio nos pisos térreos. Pelo que vou vendo por aí, parece-me que a tendência agora é uma espécie de híbrido com construção em altura, mais comércio de proximidade e um regresso à hierarquização das ruas -- e este aspecto é uma das diferenças grandes entre Alvalade e os Olivais. Alvalade tem a Av de Roma como eixo principal, nos Olivais a hierarquia é menos visível. Suponho que na Alta a ideia é recuperar o conceito de avenida principal. Parece-me que esta hierarquia tem algumas vantagens -- cria uma linha de referência e um pólo de atracção onde as pessoas se encontram. Uma cidade demasiado uniforme parece demasiado vazia. Suponho que nós como animais gregários precisamos sempre dum pretexto qualquer para nos encontrarmos, nem que seja uma esquina -- uma coisa que não há nas cidades modernistas.

Tiago disse...

Passei uma semana em Amesterdão, na zona norte, construída depois da guerra sob os conceitos do Corbusier (agora não estou enganado), e adorei lá estar. É um pouco incómodo ter de andar vários kilómetros para comprar um pacote de esparguete, mas a qualidade de vida é sublime. Os espaços verdes são de uma abundância inacreditável, pelo plano urbanístico, e pujantes pelo clima. Se fores ao Google Earth encontras em 52°24'6.02"N e 4°56'57.37"E. Qual era a ideia de separar tão completamente zona residencial de zona laboral e comercial?

Não sei se as pessoas que lá moravam gostavam de lá viver e da vivência diária das desclocações. O meu holandês é rude e não ousei perguntar. Mas fiquei com um ideal de cidade muito inspirado naquilo e só encontro semelhanças em Portugal nos Olivais.

Cininha disse...

Não há dúvida que os miúdos vão muito mais longe e mais depressa que os adultos. É esta nossa 'mania' de catalogar, rotular e empacotar tudo, desde as pessoas às coisas e aos lugares que nos faz complicar o que é simples. O ideal de cidade que as crianças encontraram é, também, o meu ideal - até a rotunda...
Há sempre uma zona com relva, um jardim entre cada espaço urbanizado e as zonas de lazer, residência, comércio e, porque não, funcionalidades como a saúde, a justiça, a escola, estão misturadas e de fácil acessibilidade. Os idosos não correm o risco de ser atropelados ao atravessar a estrada e não seria necessário fazer quilómetros para usufruir de um parque em que centenas de pessoas quase se acotovelam...
Outro problema passa, também e a meu ver, pelo facto de a maioria da população ser muito Estado-dependente devido, entre muitos factores, ao Estado paternalista que subjugou os portugueses durante anos e anos de regime ditatorial. Isto fez com que se esperásse que os governos e as autarquias fizessem tudo o que as populações ambicionam, esquecendo-se que estas também têm um papel a exercer - e que não se resume ao voto.
É por isso, creio, que entre muitas torres de prédios lisboetas, por exemplo, existem terrenos aproveitados não para colocar um campo de ténis, um parque infantil ou um simples jardim, mas para deixar acumular lixo e seus habitantes (ratos, baratas e quejandos). Os moradores até sentem que seria benéfico, mas não se atrevem a fazê-lo. E razões não faltam: o terreno pertence a terceiros, é a Junta de Freguesia ou a Câmara quem deve fazê-lo, não há tempo, não há vontade, não há dinheiro, são poucos os que se mobilizam, depressa o espaço seria vandalizado,...

Porque é tão difícil mobilizar as pessoas para a necessidade de transformar um espaço que pode resultar em benefícios para todos os vizinhos?

sushi disse...

E hoje já saiu um anúncio de venda de uma dessas belissimas habitações no suplemento "Espaços & Casas" do Expresso.

sushi disse...

Falso Alarme!

Ainda não aconteceu...
Parece que quem viu não se soube explicar...

E assim se lança um boato!

Tiago disse...

Pois... Bem me parecia. Onde é que eu já vi isto?