quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Centro Social da Musgueira

Este post está em dívida há semanas, senão meses. Tomei contacto com o Centro Social da Musgueira desde que foi feita a exposição das memórias no Parque da Conchas, já lá vai quase um ano. Um evento organizado por várias entidades que trabalham no campo social nesta zona, que revelou muito carinho, muita saudade, que suscitou nos visitantes, nos que aqui viveram e têm ainda memórias desse passado muito recente, muitas reacções emotivas, muitos sorrisos tristes, muitas lágrimas, muitas explosões de gargalhadas naquele revisitar colectivo às ruas improvisadas, às barracas de familiares e amigos, às histórias passadas naqueles locais.


Fiquei a saber que o Centro Social da Musgueira operava no bairro há décadas, fazendo um trabalho meritório que abrange toda uma população desde os 3 anos de idade, com o Jardim de Infância, continuando a dar apoio às faixas jovens com um ATL, salas de estudo e explicações dadas por voluntários, uma Mediateca, acabado por assegurar também o funcionamento do Centro de Dia para a 3ª idade, além da assistência a acamados em casa. É uma luta diária para fazer esticar ao máximo os parcos recursos que tem.

Prometi na altura uma visita às instalações do CSM, que fui muito portuguesmente adiando, até que meses depois apareci. Visitei então o Jardim de Infância, guiado pela Ana Barata, a directora do CSM, que me deixou boquiaberto com a qualidade do trabalho feito com as crianças dos 3 aos 6 anos. Fiquei de escrever sobre o Centro Social, e sobre o JI. Mas mais uma vez, sempre querendo encontrar, em vão, uma qualquer forma perfeita para o fazer, o constante adiar.


Tive de desistir. Mais vale dizer qualquer coisa, mesmo correndo o risco da banalidade, que pelo menos informe, do que andar meses à procura de algo que me transcenda. Há quem diga que todos nascemos com um potencial infinito, mas que o vamos perdendo com o passar do tempo, por erros na educação, oportunidades perdidas, experiências de aprendizagem pobres, etc. Foi o que me aconteceu. Mas, enfim, limitadinho mas esforçado, cá vai então o que vi.


Uma das coisas que mais me fascinou foi o método pedagógico aplicado no Jardim Infantil, uma mais-valia recente que está a ser supervisionada por dois pedagogos conhecidos, mas cujos nomes não me recordo, algures de Braga. Vi crianças sossegadas, atentas, numa rotina diária de planear actividades, executá-las, e, depois de arrumar brinquedos, livros, papéis, pincéis e tintas, relembradas, recapituladas e ainda explicadas aos colegas. Gostei de ver essa consciência pedagógica nos educadores, de dar tempo e espaço a cada criança para se desenvolver, deixando-a aparentemente livre à sua vontade, mas conduzindo-a na descoberta de coisas tão triviais como o que são os vulcões, o que é o gelo, o vapor, a chuva, as várias espécies de elefantes que habitam o planeta, porque hibernam as tartarugas ou quem foi o Picasso.



É inesgotável a dedicação e entrega que têm cada uma das professoras, que planeiam dia após dia as actividades de grupo, fazendo ainda, no final de cada dia, um resumo do que cada criança fez, que juntam aos dossiers individuais de cada aluno, com fotografias, histórias, momentos especiais nos seus processos de aprendizagem. Autênticos livros, garanto-vos, ferramentas pedagógicas no presente e futuro próximo, e, daqui a uns anos, uma memória inestimável para cada uma daquelas crianças, que muito provavelmente nenhum de nós tem.

Muito boa é também a preocupação de levar as actividades praticadas na escola a casa a casa e à família, envolvendo-a, prolongando assim o processo de aprendizagem, reforçando-o ainda por o transformar também num processo de ensino, aliás como na fase diária em que um aluno expõe aos colegas o que o ocupou nos minutos anteriores. Vi fotografias de momentos lindos, como o de uma mãe de uma aluna que veio um dia contar uma história popular de Cabo-Verde e que desenhou e pintou uns fantoches para melhor ilustrar a história.

E lá está, fiquei com a sensação, nas semanas que se passaram desde que vi tudo isto e me propus divulgar o trabalho no blog, que se tivesse tido uma educação assim teria conseguido escrever melhor e mais depressa, sem este constante adiar. Esta planificação de curto, médio e longo prazo, bem feitinha, é coisa que se fala nos corredores da pedagogia há muito tempo, mas raramente a vi aplicada. Os objectivos de curto prazo, por trazerem resultados rapidamente, são etapas essenciais na aprendizagem, pelo que fazem na motivação e auto-estima. Por serem uma experiência bem sucedida, suscitam vontade de a repetir. Por serem processos curtos, rapidamente executáveis, a vontade de os repetir é facilmente satisfeita. Planear, executar, atingir o objectivo planeado, e recapitular o processo. Tive experiências de aprendizagem destas, mas não de uma forma tão intencional, tão frequente que pudesse criar rotinas. Infelizmente.

Acabei por convidar a Ana Barata para colaborar no blog. Respondeu que não tinha tempo para o alimentar como gostaria. Insisti, aliviando-a por não haver qualquer obrigação editorial. Ficou de pensar. No dia seguinte voltei à carga e ouvi dizer que o convite era lisonjeador, mas senti ainda algum receio. Modéstia injusta e injustificável. Trazer para o blog alguém que realmente faz alguma coisa prática em campo é uma honra maior para nós. Lisonjeador é que o convite seja aceite, Ana, e possas trazer, sempre que quiseres e quando puderes, as histórias que conheces, a experiência acumulada, que acrescentes aqui algo que nos é impossível dar. Porque o trabalho que o Centro Social faz diariamente merece e devia ser conhecido por todos.

7 comentários:

Carlos disse...

Parabéns, Tiago, pelas suas palavras justas e merecidas.
O trabalho que o Centro Social da Musgueira tem feito nesta zona da cidade ao longo dos anos merece ser conhecido. Não só com crianças, através do JI e do ATL, mas com jovens através da sua mediateca e com idosos nomeadamente no Centro de Dia que tem junto à Malha 6.
Depois de um longo atraso de um ano, vai finalmente avançar o projecto de construção das novas instalações do Centro que vão ficar junto aos Edifícios da Rua Pedro Queiroz Pereira requalificando igualmente parte dessa zona. É uma contrapartida contratual da SGAL à CML e um projecto aliciante do CAS – Arquitectos que trará novos desafios ao Centro, que estou certo, todos aqueles que têm dedicado a sua vida a um projecto extraordinário de apoio social, saberão mais uma vez alcançar com equilíbrio, bom senso e enorme sucesso.

Pedro Veiga disse...

Gostei muito de ler esta pequena reportagem sobre este projecto de apoio social que já tem um longo caminho percorrido. Esta forma de registar as actividades das crianças ao longo do tempo é muito interessante e motivadora. Os nossos teóricos das ciências de educação deveriam olhar para estes exemplos como casos exemplares de boas práticas. Esta actividade merece bem ser divulgada! Tiago, parabéns pelo texto e fotografias!

joana disse...

Gostei muito.

João Tito disse...

Parabéns Tiago por este belo Post. O trabalho do Centro Social da Musgueira é meritório tal como o trabalho de muitas instituições sociais da zona que nem fazemos ideia que existem. Gostei muito da Ana Barata apesar ainda não a conhecer muito bem.

Helena Brito disse...

Sou educadora de infância no Centro Social da Musgueira e foi muito bom ler estas palavras que valorizam o trabalho que a equipa de Jardim de Infância faz no dia a dia. Ao verificar que para além de nós, existem pessoas que acreditam neste tipo de intervenção que fazemos com as crianças dá-nos força para continuar a fazer o nosso trabalho. Obrigada Tiago

Anónimo disse...

Helena nao e so o Tiago. ha muitos cidadaos que acreditam e valorizam o vosso trabalho. Na maioria das vezes so nao paramos para agradecer.

Rodrigo Bastos disse...

Excelente reportagem sobre uma actividade muito nobre que quando feita com profissionalismo e dedicação merece toda a nossa atenção e apoio.

Continuem com o bom trabalho :)