sábado, 18 de novembro de 2006

Parque Periférico I

Gonçalo Ribeiro Telles
PARQUE PERIFÉRICO

(retirado do Boletim Lisboa Urbanismo nº1 - Ano 1998)


Na configuração espacial da estrutura ecológica de Lisboa, o Parque Periférico apresenta um traçado circular em relação à cidade.

O Parque Periférico é constituído por uma estrutura contínua reticulada que vai desde o Parque de Monsanto até à Ameixoeira.

Abrange quintas notáveis, os conjuntos históricos de Carnide, Paço do Lumiar e Ameixoeira, a Estrada Militar, cemitérios e áreas industriais que se estendem ao longo da faixa limítrofe norte do concelho de Lisboa.

Na configuração espacial da estrutura ecológica de Lisboa, o Parque Periférico apresenta um traçado circular em relação à cidade. O Parque Periférico é constituído por uma estrutura contínua reticulada que vai desde o Parque de Monsanto até à Ameixoeira. Abrange quintas notáveis, os conjuntos históricos de Carnide, Paço do Lumiar e Ameixoeira, a Estrada Militar, cemitérios e áreas industriais que se estendem ao longo da faixa limítrofe norte do concelho de Lisboa. Apoiando-se em diversas quintas e lugares consolidados, estende-se ao longo de três sistemas lineares:

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- Estrada Militar, que corresponde à linha panorâmica de crista;
- Talvegues das águas que correm para o Vale de Alcântara (antiga Ribeira de Alcântara) e para a Calçada de Carriche, que correspondem ao sistema húmido;
- Estrada histórica que liga Carnide, Paço do Lumiar e Ameixoeira (antiga Estrada do Paço do Lumiar).

Sempre que possível, azinhagas ou espaços de uso colectivo ligam radialmente os sistemas atrás citados.

O sistema panorâmico e o sistema húmido, para além da Estrada Militar e das linhas de água que os definem, deverão ser percorridos por caminhos para peões e bicicletas.A estrada histórica (antiga Estrada do Paço do Lumiar), deverá ser percorrida por trânsito local condicionado a viaturas e bicicletas. As ligações radiais deverão ser também destinados exclusivamente a trânsito automóvel de emergência, bicicletas e peões. De uma forma global, o Parque Periférico deverá desempenhar as seguintes funções:

- Regularização do regime hídrico e cintura verde
- Recreio, desporto e turismo
- Cultura e educação
- Produção
- Humanização de espaços por vezes já muito degradados


1. Regularização do regime hídrico e cintura verde

A expansão das edificações em Lisboa deverá, para além de se sujeitar a índices de dimensionamento e volumetria, respeitar a pré existência de uma estrutura ecológica que permita: a existência de solo permeável como interface entre a crosta terrestre e a atmosfera, com todas as consequências daí resultantes; a presença de uma rede de vegetação que irá possibilitar uma melhoria do clima local e contribuir para a diminuição da poluição; a circulação da água pluvial a céu aberto em linhas de água que servirão de agentes activos de depuração, bacias de deposição de materiais sólidos e regularização dos caudais, funcionando em articulação com os esgotos convencionais



Fig.1
Sistema Panorâmico sobre a Campina de Loures. Estrada Militar.
Caminhos de peões na crista de protecção da estrada militar e de bicicletas no lado oposto.
Recuperação histórica de bastiões e dos paióis de pólvora.
Manuela Raposo de Magalhães in- Morfologia da Paisagem



Fig.2
Sistema húmido: curso de água acompanhado de vegetação ripícola e de caminho de peões e bicicletas
Sistema transversal: constituído por azinhagas ou novos percursos arborizados
Sistema histórico: estrada que liga Carnide, Paço do Lumiar e Ameixoeira




2. Recreio, desporto e turismo

A estrutura ecológica e cultural do Parque Periférico permite desenvolver determinados aspectos de recreio, especialmente passeios a pé ou de bicicleta, quase sempre separados do trânsito local de viaturas. O exercício da marcha e da corrida encontrará, nos caminhos do parque, extensos percursos que possibilitam a sua prática nas desejáveis condições de um ambiente saudável.

Desportos tradicionais e a céu aberto, recintos equipados com aparelhos de ginástica e circuitos de manutenção encontrarão lugar na rede de corredores e espaços que constituem o parque.

Também miradouros poderão ser criados nos antigos bastiões da estrada militar, assim como a implementação de apoios com restaurantes e sanitários irão decerto facilitar o uso do parque.

A criação de espaços destinados á implantação de pombais também deverá ser um objectivo do Parque Periférico, dada a popularidade dos concursos de pombos correios.


3. Cultura e educação

A Estrada Militar, percorrendo a crista do desfiladeiro que separa Lisboa da Campina de Loures, é um dos elementos estruturantes do parque. Poderão alguns bastiões e paioes serem recuperados e utilizados como memória militar da defesa da cidade, assim como a instalação de um museu no Forte da Ameixoeira.

Também é importante a recuperação de algumas das ocorrências ainda existentes da paisagem rural dos arredores (olivais, sebes, culturas hortícolas), assim como a vegetação ripícola das linhas de água a recriar, acarretando um enriquecimento da fauna silvestre, especialmente das aves. Tanto a possibilidade de reencontrar a paisagem viva e de observar a vida silvestre num ambiente "urbano" são valores de grande importância a considerar numa política de educação]




Fig.3
O "Parque Periférico" constitui uma estrutura reticulada que tem por
objectivo a construção de uma paisagem assente nos valores do lugar e
projectada para o futuro.
As áreas integradas de recreio e produção (hortas sociais) surgem intercaladas nos tecidos consolidados



A integração de quintas e dos sítios históricos de Carnide, Paço do Lumiar e Ameixoeira numa estrutura contínua é uma acção que por si só justificaria a criação do Parque Periférico.


4. Produção

Muitas camadas das actuais populações urbanas necessitam de ter, para além dos seus salários e algumas reformas exíguas, outras fontes de rendimento. A mais procurada é a de exploração de hortas que, não só permitem à família um abastecimento fácil de alimentos frescos (vitaminas) e de venda de produtos tradicionais (flores e plantas envasadas), como proporcionam o reencontro com raízes culturais que não convém ficarem ausentes, mesmo no meio urbano.


5. Humanização de espaços por vezes já muito degradados

Nas áreas atingidas pela rede estruturante do Parque Periférico existem bairros que irão ser beneficiados pelo tratamento da sua envolvente e dos espaços públicos interiores.

Por outro lado, as populações residentes poderão encontrar no parque um espaço de recreio que contribuirá para a melhoria da sua qualidade de vida.

A integração de espaços industriais numa estrutura verde irá não só valorizar esses espaços como também eliminar aspectos contrastantes com a paisagem do parque que, já hoje, desvalorizam alguns destes lugares.

5 comentários:

Carlos disse...

O Parque Periférico é, na realidade, essencial a Lisboa. Está pensado, previsto no PDM, falado de tempos em tempos (sobretudo em vésperas de eleições...), defendido desde sempre pelo Prof. Ribeiro Telles. No entanto, nunca mais é implantado. Nunca mais sai do papel. Como tantos e tantos projectos em Lisboa.
Este da Baixa, recentemente apresentado, parece-me que vai pelo mesmo caminho. Falta-lhe o que falta muitas vezes: o pragmatismo de optar pelo possivel e encontrar os meios para executar.
Nesta nossa Alta aconteceu isso: pensou-se num projecto, sonhou-se com uma fórmula (uma cidade de todos para todos) e encontrou-se um meio para o fazer: um privado escolhido em concurso internacional que, por troca de lotes que poderia vender, teria que dar á Cidade multiplos equipamentos e zonas verdes. Por isso nós temos uma nova Quinta das Conchas e temos o Parque Urbano Oeste e vamos ter o Parque Urbano Sul. O Eng. Krus Abecassis teve esse enorme mérito: encontrar a fórmula. Com enorme pragmatismo: a Cãmara tem terrenos, mas não tem iniciativa e está presa a múltiplos procedimentos adminsitrativos, o privado tem interesse directo, vontade, capacidade.
O grande problema é quando a inércia é tanta, a burocracia é tanta, o interesse é diminuto, a capacidade de trabalho e o empenho insuficientes. É aí que a fórmula mágica parece falhar.
Mas uma vez que já tanto foi feito, tudo tem de se fazer para estimular essa inércia, interesse e capacidade de trabalho. E 20.000 a estimular vai ajudar.
Uma palavra para lamentar que o Prof. Ribeiro Telles, do que me é dado saber, nunca ter expressado publicamente uma palavra de estimulo e elogio aos Parques Urbanos da Alta de Lisboa.
Que saíram do papel, são uma realidade, que podemos usufruir, sentir e partilhar, com tolerância.

Tiago disse...

MAs a falta dessa palavra de apreço e elogio significa que o sentimento é de reprovação? Foi-lhe pedida opinião e ele recusou dar?

Carlos disse...

Não, nunca foi pedida. Mas precisamente por isso é que devia ser emitida. Quem luta há tantos e tantos anos para que existam projectos que tragam melhor qualidade de vida ás pessoas, que respeitem os rios de água, que sejam sustentáveis, ecológicamente evoluídos e respeitadores, quando eles surgem deve dizer algo. Independentemente de critérios de gosto ou estética.
Quem luta há tantos anos pelo Parque Periférico, pelo corredor verde para Monsanto, pela Requalificação da Av. da Liberdade, pela aposta na Frente Ribeirinha, é meu entendimento que deve dizer uma palavra, quando um projecto como o Parque Oeste nasce de raiz e cumpre muitos dos principios que são defendidos.
Se nada disser, ficam no ar muitas possiveis interpretações, o que não é bom.

Tiago disse...

Bem, podemos tentar entrar em contacto com o Arq. Ribeiro Telles através do deputado Pedro Quartin Graça, do MPT. Era interessante ouvir a sua opinião, e duvido que um homem com uma visão tão humanista da cidade se recuse a dá-la, mesmo que seja desfavorável. E se o for, o que me custa a acreditar que seja, estou curioso em perceber os argumentos.

Carlos disse...

Por mim, acho bem.
Outra hipótese era aguardarmos pela reabertura da Quinta dos Lilazes (que penso estar para breve) e vermos se ele (por iniciativa própria) dizia alguma coisa. Gostava muito que o fizesse e penso que era merecido.
Mas a ideia de o fazermos pelo Deputado Quartin Graça também me parece boa. Podiamos até combinar uma visita á Alta, uma tertúlia no Parque, um passeio pelos Parques, uma palestra/aula.