quinta-feira, 21 de setembro de 2006

EcoFamílias – o que esconde um relatório

logo_ecocasa.gif


O programa Ecofamílias é um projecto da Quercus que pretende monitorizar durante um ano os consumos energéticos de 30 familias portuguesas e avaliar o potencial de poupança desses lares após aconselhamento personalizado e a mudança dos hábitos de consumo das famílias envolvidas. Foi com enorme entusiasmo que há um ano soube da minha selecção para este projecto passados 12 meses a desilusão é total.

A Quercus apresentou na passada 6ª feira à comunicação social o Relatório de Progresso (R.P.) dos primeiros seis meses do programa Ecofamílias. Como família participante fui convidado para a conferência de imprensa, infelizmente não pude comparecer porque estava a trabalhar, presumo que não tenham aparecido muitas famílias, é que dez e meia da manhã pode ser uma boa hora para jornalistas, mas não é seguramente para quem tem outro tipo de trabalho. Não sei como foi a apresentação, o que foi discutido, que perguntas foram feitas ou quais as respostas dadas, como família participante (que curiosamente conhece outras duas famílias envolvidas) vou limitar-me, por isso, a escrever sobre o que estava previsto ser feito e o que foi feito , sobre as expectativas das famílias envolvidas e sobre o relatório apresentado.

Continuar a ler
Estavam previstas visitas quinzenais nos primeiros 4 meses que passariam a mensais nos meses seguintes, isto quer dizer que nos primeiros 6 meses (já contando com 30 famílias em vez das 32 inicialmente previstas) deveriam ter sido feitas 300 visitas mas foram só feitas 155 . Independentemente das questões relacionadas com a fiabilidade de recolha de dados, existe uma expectativa de quem se ofereceu como voluntário para este estudo, o mínimo que a Quercus
deveria ter feito seria informar os participantes das mudanças que estavam a ocorrer e dar uma justificação sempre que se passavam períodos de 3 e 4 meses sem qualquer tipo de contacto ou visita. Há uma família (que não é uma família de controlo) que recebeu duas visitas iniciais e que só voltou a ser visitada 2 dias antes da conferência de imprensa da semana passada. Neste caso pura e simplesmente NÃO houve dados credíveis para apresentar.

A primeira fase do projecto ou fase de diagnóstico era foi de 6 meses, nunca até ao surgimento deste relatório se tinha falado em 9 meses. Estou convicto que esta mudança aconteceu pelo atraso com que foi implementada a segunda fase do projecto ou fase de recomendações. No meu caso a fase de recomendações começou na véspera da conferência de imprensa, ou seja 2 meses depois da nova calendarização apresentada no R.P e 6 meses depois do que estava previsto inicialmente . Duas outras famílias começaram a fase de recomendações 2 dias antes da Conferência de Imprensa.

Outro dado estranho deste relatório é o início do estudo, a primeira visita que recebi da Quercus
foi na primeira semana de Outubro de 2005, neste relatório Novembro surge como o mês de arranque do Programa Ecofamílias
. Não encontro outra explicação que não seja a de encobrir o atraso da implementação da fase de recomendações. Terminando o estudo um mês mais tarde sempre é possível cumprir (a saca rolhas, claro) a última fase do estudo e concluir finalmente o programa Ecofamílias
.


O Relatório está estruturado com inteligência e tem um a quantidade enorme de informação genérica relevante. Não questiono a utilidade e mérito deste documento, mas fico com grandes dúvidas sobre a credibilidade dos dados recolhidos junto das famílias e a relevância da sua participação. Sobre o trabalho desenvolvido pela Quercus
neste programa a desilusão é total. Provavelmente as minhas expectativas eram elevadas, mas que exige, e bem, tanto dos outros deveria ter para si os mesmos padrões de exigência. Sinceramente tenho pena que assim seja.

5 comentários:

Pedro Veiga disse...

Se calhar usaram uns modelos padrão de consumo e com isso calcularam os gastos energéticos das famílias. Mas não há nada como ter os dados reais. Só com essa premissa é que um estudo pode ser considerado credível.

João Tito disse...

A questão é essa, como é que um estudo pode ser considerado credível quando a recolha de dados não é feita ou é mal feita?

joana disse...

E reclamaste junto da Quercus? O que te disseram?

João Tito disse...

Eu sempre estive em contacto, desde Janeiro que eu reclamo junto do meu interlocutor da Quercus. Para teres uma ideia entre Abril e Setembro não tive nenhuma visita nem houve qualquer recolha de dados. Outra família que conheço foi visitada 2 vezes ainda em 2005 e só voltaram lá agora dois dias antes da conferência de Imprensa, nunca olharam para os contadores dessa família mas os resultados aparecem no estudo, ou seja são forjados (e assumo o que estou a dizer).

sushi disse...

Realmente já tinha visto a apresentação desse projecto, nas últimas Jornadas de Ambiente que decorreram em Fátima, e o Projecto tinha-me parecido bastante interessante - não me tinha imortado nada de participar.
Tenho pena que tenha corrido dessa maneira, principalmente porque talvez fosse interessante descobrir que há famílias que já têm um comportamento ecológico.
Acho de muito baixa indole, alterarem dados e não fazerem cumprir um projecto, que tem testemunhas que os podem desmentir quanto ao seu desempenho...