sábado, 6 de maio de 2006

Viver goes to CCAL - Blackbird

Devo aos Beatles muita da minha iniciação musical. Ouvia o Submarino Amarelo todos os dias e quando o vinil chegava ao fim pedia aos meus pais: "Outra vez!". A repetição é necessária para a aprendizagem, para a vinculação afectiva, para o imprinting.

A canção Blackbird foi composta em 1968 por Paul McCartney, inspirada nas manifestações pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos.


Blackbird, por Paul McCartney, gravada em 1968

Continuar a lerBlackbird singing in the dead of night, Take these broken wings and learn to fly

All your life, You were only waiting for this moment to arise

Blackbird singing in the dead of night, Take these sunken eyes and learn to see

All you life, You were only waiting for this moment to be free

Blackbird fly, blackbird fly, Into the light of the dark black night

Blackbird fly, blackbird fly, Into the light of the dark black night

You were only waiting for this moment to arise

You were only waiting for this moment to arise


"A inspiração original foi uma muito conhecida peça de Bach, cujo nome nunca sei, que eu e o George aprendemos a tocar quando éramos muito jovens - ele melhor do que eu, na verdade. Parte da sua estrutura tem uma particularidade harmónica entre a melodia e a linha do baixo que me intrigou... Desenvolvi a melodia baseado na peça do Bach e levei-a a outro lado, a outro nível, depois só acrescentei as palavras. Tinha na ideia uma mulher negra em vez de um pássaro. Estávamos no tempo do Movimento dos Direitos Civis que todos nós acarinhávamos apaixonadamente. Portanto esta é realmente uma canção minha para uma mulher negra, vivendo aqueles problemas nos Estados Unidos... "Deixa-me encorajar-te para continuares a tentar, para manteres a fé, há esperança." Como muitas vezes acontece com as minhas coisas, o disfarce ocorreu. Então, em vez de dizer 'Mulher negra a viver em Little Rock' e ser muito específico, ela tornou-se pássaro, tornou-se símbolo, e assim cada um pode aplicá-la ao seu problema em particular."
Paul McCartney, em entrevista em 1994


Tenho pena de não saber a que peça de Bach se refere McCartney, mas a simplicidade de meios usada nesta canção é desconcertante. Uma guitarra acústica, a voz de Paul McCartney, e o pendular tic-tac de um metrónomo! Os passarinhos foram acrescentados depois.


Tal como Bach, que adorava aproveitar o material musical de outros compositores para o recriar nas suas obras, também Brad Mehldau resolveu fazer a sua versão de Blackbird em trio de piano, contrabaixo e bateria. Numa linguagem muito jazzística, as características de fraseado, de riqueza harmónica e polifónica do pianista norte-americano são notórias.


Blackbird, por Brad Mehldau Trio


Extraordinária é a versão de Mário Laginha, um músico fabuloso que só não tem uma carreira semelhante à de Brad Mehldau por não ter nascido no mesmo país. Editada no álbum Undercovers, em 2003, o arranjo de Laginha desenvolve a parte percutiva da canção dando-lhe um carácter afro.



Blackbird, por Mário Laginha e Maria João




P.S. O meu amigo Pedro Louzeiro enviou-me entretanto outra versão, muito parecida com o original dos Beatles, mas com uma voz da Sarah McLachlan, numa versão utilizada no filme I am Sam, com o magnífico Sean Penn.


14 comentários:

Pedro Veiga disse...

De facto, em Bach está lá tudo! Excelente post, Tiago! Tenho que aprender estas habilidades de colocar música nos posts!

Pedro Veiga disse...

E é realmente muito bonito ouvir estas versões!

Pedro Veiga disse...

Vamos soltar bem estas melodias, para ver se esta ciade se liberta em definitivo das suas grades, correntes e mordaças!

Tiago disse...

Quando quiseres explico-te como se põe. Este leitor já não dá os problemas do outro mas tem particularidades que o fazem mais difícil de utilizar.

Gosto muito destas três versões. Não faz sentido ficar indeciso entre as três porque convivem todas muito bem.

Ana Louro disse...

Sim, também não sei qual prefiro (a 2ª não conhecia). Por mim estás nomeado seleccionador musical do CCAL. Obrigada e continua.

joana disse...

Tens mesmo que me gravar um CD :-).

Margarida C. disse...

Belo tema!

Inês L. disse...

O tema é realmente incrível. Fascina-me como os arranjos podem atribuir diferentes cores ao tema sem este perder o que tinha de especial originalmente. Acho óptimo o post e a forma como nos deste a conhecer estas versões tão distintas!

sushi disse...

Mais uma vez, Obrigada pela esta partilha.
Sem dúvida, os três magnificos (Brad, Mário, Sean).
A única versão que não conhecia era a do Brad Meldhau e como sempre, genial.

Nuno disse...

Por aqui, http://www.songfacts.com/detail.php?id=157, corre o boato de que a peça inspiradora teria sido uma certa Bourrée em Mi menor, que, pelo estatuto "famoso" que o McCartney lhe atribui (pelo menos para guitarristas), é capaz de ser a da
Suite n.1 (BWV 996).

Tiago disse...

Já estive a ouvir a Bourrée. Não consigo encontrar qualquer relação. Deve ser boato mesmo, mesmo assim ainda me vou por ao piano a procurar melhor alguma coisa que posso ter dado a ideia do blackbird.

Obrigado a todos pelos comentários!

Rodrigues disse...

Pois... vinha precisamente dizer-te que o Blackbird, que eu não conhecia, se inspirava numa certa Bourré em Mi menor (não encontrei referência à suite)... mas já alguém o fez por mim. ;)

Ana Louro disse...

Pois é, eu vi o filme e só agora me lembrei desta versão, mas prefiro a voz da Maria João (e do coro).

Ana B. disse...

Fantástico!!! Soube-me muito bem lembrar estes Blackbird. Conhecia as três versões mas há muito tempo que não as ouvia. E o efeito é sempre o mesmo: energizante! É intimista, tem significado e sobretudo muita força. Tal como tu, Tiago, sou capaz de o ouvir vezes sem conta. Tenho um "fraquinho" pela versão do Brad Meldhau (esse virtuoso).

Obrigada, obrigada, obrigada