segunda-feira, 8 de maio de 2006

Culinária de Lisboa - INTRO

Capital feita de imigrações desde que o desígnio dos homens face à segurança do espaço e à riqueza da terra a transformou em centralidade de uma região primeiro e de um país depois, Lisboa soube criar uma tradição culinária que, radicando a sua origem e inspiração nos berços da população imigrante, a soube transformar e evoluir, dando-lhe algo de seu, deste sentir de pôres-do-sol junto ao rio, de hortas nos limites das ruas, de colinas pontuadas de limoeiros e nespereiras, da varandas perfumadas com potes de aromáticas ervas, de gentes cosmopolitas mas nostálgicas do torrão natal, de marinheiros saudosos de terra firme e poetas ansiando por portos distantes.



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A culinária lisboeta é, na sua esmagadora maioria, uma culinária caseira, uma lembrança dos manjares de meninice e das guloseimas maduras dos jantares familiares. Ao contrário de capitais mais ricas, não buscou nem o brilho de palácios nem o fausto de restaurantes dispendiosos de industriais bem-sucedidos. Soube dosear a riqueza que as redes dos pescadores lhe deixava à beira-rio com a diversidade de legumes que a generosidade dos vales envolventes permitia. Descobriu a magia dos refogados; aproveitou os ensinamentos sobre ervas e especiarias que conterrâneos e exploradores lhe ensinaram. Finalmente, soube não esquecer o legado da miríade de conventos que a sua gula alimentou durante séculos.

De tudo isto se fez uma cozinha que, não sendo regional, é a de uma região onde se concentra cerca de 30% da população portuguesa. E onde, com toda a certeza, novos e velhos, migrantes ou alfacinhas de gema, se reconhecem. Em si contém um bocadinho da origem de cada um. E sendo assim, a cada um pertence também. A nós e ao outro que também é nós.

Continuando a perseguir a abrangência, inicia-se assim aqui a construção de mais uma repartição pública na Alta de Lisboa, dedicada – como decerto já perceberam pelo título – à culinária de Lisboa.

6 comentários:

Ponto Verde disse...

A pesada Herança do "Comunismo" Betoneiro na Margem Sul em www.a-sul.blogspot.com

Ana Louro disse...

A esta hora da manhã não, mas mais logo escolheria Sardinha Assada (já é mês sem r e não é 2ª feira), acompanhada de salada de tomate maduro/pimentos e cebola (da doce), regada com azeite polvilhado com oregãos.

Ana Louro disse...

Oregão acho que não tem plural, mas já está.

Ana Louro disse...

E acho que tem acento (orégão), peço desculpa. Deve ser de estar ainda meia a dormir.

Ana Louro disse...

Já sei o que é que me lembra o título do post (que rima com namorados de Lisboa) - uma canção do Carlos do Carmo com poema do Ary dos Santos - Namorados da Cidade:
«Namorados de Lisboa
à beira-Tejo assentados
a dormir na Madragoa.
Namorados de Lisboa
num mirante deslumbrados
à beira-verde acordados
namorados de Lisboa!

...

Sempre sempre apaixonados
mesmo que a tristeza doa
namorados de Lisboa!»

E por hoje chega de comments.

Sérgio disse...

Algo que nos caracteriza e não nos envergonha. Obrigado, Pedro.
Ficamos sedentos das iguarias.