segunda-feira, 24 de abril de 2006

O direito à diferença

Há uns tempos atrás fui à mercearia no Bairro da Cruz vermelha. Era Sábado, hora de almoço, e precisava de algumas pequenas coisas, entre as quais, hortelã. Já não tinham. Mas era mesmo importante: há temperos que a minha costela alentejana não dispensa. O meu desconsolo traduziu-se num “Ohhh, não tem?!...” tão desolado que chamou a atenção de um outro cliente. Simpático, indicou-me onde podia encontrar o que queria. Alguém tinha plantado hortelã num dos canteiros das árvores que ornamentam a rua pública. Eu podia servir-me e voltar quando quisesse, era de todos. Já lá voltei de novo, bastante tempo depois deste episódio, e quem por ali estava voltou a confirmar: “Leve, que não se importam”.

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Naquele dia levei para casa mais do que a hortelã. O “calorzinho” de uma gentileza, o revivalismo da infância em que ia ao quintal, em casa dos meus avós, apanhar qualquer coisa fresca para ser usada na hora, e esta pequena história que tem sido ponto de partida de muitas conversas com amigos. Há várias coisas que se podem discutir aqui. O espaço público versus espaço privado, por exemplo. É engraçada a forma como o espaço público foi utilizado, por iniciativa individual, mas como se mantém o carácter “comum” daquele canteiro, embora resultado do esforço de apenas um (ou de poucos).

Mas nem foi isso que me fez pensar mais. Imaginei as consequências se aparecesse alguma coisa plantada em algum canteiro da minha rua (apenas a uns escassos 200 ou 300 metros da “rua da hortelã”). Não precisa de ser uma horta, podem imaginar rosas. Antevi os comentários no elevador, nos halls dos prédios, nestes blogs, talvez. Surgiria o argumento da apropriação indevida do espaço público, é certo, mas apenas para camuflar o que realmente incomoda: a heterogeneidade. A diferença entre um canteiro “custumizado” (poderei usar esta palavra?), e os outros do lado, estéreis. Se fossem todos iguais, então sim.

É adaptar-me a isto que mais me custa. A intolerância das expressões individuais, o conceito vigente de que a homogeneidade é absolutamente detentora de superioridade estética, a obsessão com a regulamentação de tudo, ao ponto de interferir na vida de cada um. Já hoje ouço sugestões sobre a necessidade peremptória de todos terem uma palavra a dizer sobre o tipo de plantas que eu posso ter na minha janela (quiçá contratar um arquitecto paisagista para decidir...). Parece-me próximo o dia em que decidirão a cor das minhas cortinas (em Bruxelas já é assim há muito tempo, são todas brancas). E temo que um dia seja decretado que não tenho a altura e cor de cabelo regulamentar para aparecer à janela! Esta ideia de que temos que viver numa maquete gigante, a mim, oprime-me.

Tudo isto me faz lembrar a fruta normalizada que nos apareceu nos supermercados há 20 anos atrás, quando entrámos para a (então) CEE. Era grande, bonita e luzidia, mas a saber a água. Hoje, já todos aceitamos com naturalidade que uma cereja bicada é sinal de ser mais doce. As bananas da Madeira, cheias de moças e manchas por fora, também são geralmente consideradas melhores, por dentro. Os legumes de agricultura biológica, são cada um de seu tamanho, mas ninguém duvida da sua superioridade. E tal como na fruta se tem que fazer concessões à imagem para receber, em troca, sabor, nos bairros teremos que o fazer um dia também, se queremos vislumbrar vida, pessoas e humanização.

E voltando ao princípio da história, bem sei que as coisas não caminham para aí. Mas gostava mesmo de um dia, se estivesse a dar indicações a amigos sobre como chegar a minha casa, lhes pudesse dizer que era no Nº12, a porta em frente ao canteiro das...não sei, talvez papoilas, acho que gostava de papoilas.

8 comentários:

Ambientalistas da Amadora disse...

Adorei este post. Este verão quando indicar a minha casa a amigos direi: "É o prédio dos girassóis". Plantei-os há duas semanas e estão a crescer a olhos vistos. Aqui onde moro, Moinho do Guizo, Amadora, há várias pessoas a semear e a plantar nos canteiros das árvores na rua. Já vi alhos, cebolas, morangos, salsa, coentros, hortelã. Mais recentemente descobri couve galega. Vejam a foto neste blog
http://ambientalistasdaamadora.blogspot.com

Tiago disse...

Lindo, Joana. É bom haver pessoas como tu para darem alguma cor ao cizentismo da vida vivida por decreto-lei.

Esta mania dos pacotinhos para tudo ainda nos vai levar a ter beijar um menino descartável e biodegradável na missa, vais ver. Vem um crente, o padre tira o menino da embalagem hermeticamente fechada, dá-o a beijar ao crente, o padre põe o menino no Meninão, vem outro crente, etc.

Lembra-me também um texto recente do Vasco Pulido Valente que irei por já a seguir aqui nos comentários.

Bem, o meu canteiro vai ter cravos, já agora. E rosas, e lírios.

Tiago disse...

Cá vai o texto do VPV:

Chateaubriand dizia que, se é triste envelhecer num mundo que se conhece, é muito mais triste envelhecer num mundo que não se conhece e de que não se gosta. O mundo dele, entre 1815 e 1830, apesar de tudo, não mudou muito. O meu mudou para lá de qualquer possibilidade de reconhecimento. Já sei que vou dar um exemplo ridiculamente banal, mas no fim do dia, quando me levanto da secretária e ligo a televisão, tenho sempre o mesmo choque. Não há nada que, para mim, seja "normal". O fait divers, a política do sound-byte, o soft-core, as perseguições de carro, os peritos de coisíssima nenhuma não fazem parte da civilização em que nasci. Numa parte remota da minha cabeça, admito que devia aprovar a ignorância e a vulgaridade democrática. Infelizmente, não sou capaz. Desisto e leio. De facto, cada vez mais releio os livros de antigamente, suponho que à procura de um pequeno canto de sossego e sanidade.
O Estado também aflige. Por favor, não tomem isto como propaganda política. Imaginem o Estado durante Salazar e Caetano. Existia a PIDE e a censura: e mil tiranetes por aqui e por ali. Não vale a pena repetir o óbvio. Em compensação, o Estado não queria mandar na vida de ninguém. Não proibia que se fumasse. Deixava o trânsito largamente entregue a si próprio. Não andava obcecado com a saúde e a segurança. Não regulava, não fiscalizava, não espremia o imposto até ao último tostão. Um indivíduo, pelo menos da classe média, passava anos sem encontrar o Estado: em Portugal, em Inglaterra, em Itália, na Europa. Acreditam que nunca voltei a sentir o espaço e a liberdade desse tempo?
Estou a "sentimentalizar", a "idealizar" uma realidade, no fundo, horrível? Não me parece. Escrever, por exemplo. Quando comecei a escrever, escrevia. Sob o peso da Ditadura, claro, e sob a pressão do conformismo marxista. De qualquer maneira, escrevia desprevenidamente. Agora, escrever é uma variante de pisar ovos. Os mestres do "correcto" vigiam, como nunca vigiaram os coronéis de Salazar. Até a sociedade portuguesa de repente acordou puritana. Cada cidadão, cada medíocre, cada engraçadinho pode esconder um polícia. Pior ainda: um delator e um explorador do escândalo. Os grandes crimes (como de resto os pequenos delitos) contra o corpo ou qualquer espécie de igualdade não se toleram, nem se desculpam. E, entretanto, o indivíduo morreu. Não fui feito para isto.

Vasco Pulido Valente


http://o-espectro.blogspot.com/2006/03/no-fui-feito-para-isto.html

homoclinica disse...

quando comecei a ler este post, lembrei-me de dizer que eu (que também mora na Alta de Lisboa, resolvi o problema plantando hortelã num vazinho. Até se dá bem. Bem regado tem sempre hortelã... mas mesmo assim não dá para as minhas necessidades, que a minha costela algarvia também exige muito ... e coentros também. Mas essa ideia de plantar ervas aromáticas nos espaços públicos e quem quizer servir-se, é uma ideia genial!

Rodrigo Bastos disse...

Muito bonito e muito mais além do que a hortelâ pimenta. Que venho daí o bairro...

Ana Louro disse...

Também tenho hortelã e manjericão na varanda, gerberas e outras plantas e estou a pensar plantar mais umas coisas (o espaço é que não é muito). E tenho-o para esquecer a selva de betão que nos envolve. O teu post lembrou-me que além de canteiros comunitários (o Arquitecto Ribeiro Telles há muito defende hortas na cidade e julgo que em Telheiras há qualquer coisa por iniciativa dos moradores) que acho que são perfeitamente possíveis aqui na Alta (onde houver canteiros, claro, por acaso na minha rua só mesmo à volta das árvores...) se podiam recuperar outras coisas que não há muito tempo ainda havia em Lisboa - entrega de pão e leite do dia ao domicílio (a minha avó vive num prédio com quase 50 anos e ainda tem no mármore da varanda os apontamentos a lápis com as contas do leite). E nem sequer era necessário estar em casa, deixavam à porta e recolhiam as garrafas de vidro do dia anterior.

Acho que poderíamos desenvolver a ideia dos canteiros por aqui. Até acho que o Arquitecto aceitaria acompanhar-nos numa visita a pé e dar-nos algumas ideias. Será que no Parque das Conchas/Lilases se poderia ter algo parecido (mesmo que os produtos fossem vendidos para custear as despesas) ocupando um grupo de reformados, por exemplo, que a isso se quisessem dedicar? No Parque do Monteiro-Mor vendem alguns produtos que lá crescem.
Ou estarei a sonhar demais?

João Tito disse...

Belo post Joana!

Rodrigues disse...

Muito bom poste! :)
Aqui na Alta temos duas varandas cheias de vasos com flores e, num deles, já houve batatas! Batatinhas pequeninas que foram usadas num caldo verde. Claro as batatas não se desenvolvem convenientemente num vaso. Mas estamos a pensar usar uma das varandas para ter uma mini-horta. Hortelã, manjericão, salsa, etc...