sexta-feira, 25 de novembro de 2005

Bancos com encosto



O projecto do Alto do Lumiar tem como uma das grandes virtudes a preocupação em dotar a zona de inúmeros espaços verdes. Encontramo-los entre dos blocos de apartamentos, na arborização das ruas, e em grandes parque como a Quintas das Conchas e dos Lilazes, em fase de reabilitação, e no Parque do Vale Grande, ex-Parque Oeste, construído de raiz.

Curiosamente, neste dois grandes espaços verdes não existem bancos como este que aqui vemos na fotografia, tirada no recém-estreado espaço verde entre o Condomínio do Parque e Jardins de S. Bartolomeu. Os arquitectos paisagistas a quem foi encomendado o planeamento dos jardins preferiram optar por bancos de pedra, sem encosto, e mesmo assim em número limitado para a quantidade de utentes dos parques.

Ora um jardim é um elemento essencial para a vivência dos bairros, para a melhoria da qualidade de vida, e a sua utilização quer-se activa e não passiva. Não basta observarmos os jardins de fora, para os viver é importante passear-se lá dentro, ver as árvores, ouvir os pássaros, cheirar as flores. Haver bancos com encosto permite um usufruto ainda mais completo do jardim, podendo ser passada uma manhã de Domingo a ler o jornal, a ver os filhos ou os netos brincar, ou simplesmente a apanhar Sol. Jardins como o Príncipe Real ou o Jardim da Estrela têm uma utilização maciça de todas as faixas etárias, servido assim toda a população, precisamente porque estão dotados de equipamento urbano para toda a gente: parques infantis para as crianças, extensões de relva para quem quiser sentar ou deitar-se no chão, mesas com bancos para os velhotes jogarem às cartas, e bancos com encosto para quem gostar de fruir calma e descontraidamente o tempo que dispõe.

É por isso que seria interessante ver até que ponto os futuros utilizadores destes espaços gostariam de ver mais bancos com encosto nos jardins. Porque acredito que se o interesse das populações for esse não existem razões para que não se proponha essa pequena alteração nos projectos paisagísticos.

9 comentários:

joana disse...

A pedido do Tiago, repito então neste post o comentário que fiz ao post do novo Jardim em perto de S. Bartolomeu.

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Quem é que não gosta de um banco com encosto?... Bem mais confortável, não é?

Há uns 2 anos conheci um rapaz alemão, nos EUA, que falava perfeitamente portugues porque tinha vivido 1 ano no Brasil. Como devem imaginar, pessoas tão viajadas têm sempre conversas interessantes :-)... Falámos imenso sobre urbanismo e design, ele estava numa escola de Artes. Fez-me reparar em coisas que nunca me tinha apercebido: como cada vez mais o design urbano evolui para que as pessoas não se sintam confortáveis fisicamente e não fiquem muito tempo no mesmo sítio. Em bom português, para que as pessoas não "abanquem"! Já repararam que os bancos corridos nos abrigos das paragens de autocarros, estão agora divididos em assentos individuais?... Já vi senhoras mais gordinhas a queixarem-se que não dá para sentar. A razão de serem assim é para não servirem de "cama" aos sem abrigo... O mesmo acontece com muros baixinhos, ou arquitectura de design mais moderno, em que as superficies têm relevos, biquinhos, etc. Aparentemente é uma opção estética, mas a verdadeira razão é não tornar as coisas demasiado confortáveis, impedir que as pessoas se sentem, se deitem, que fiquem demasiado tempo por ali. Penso que a maioria é dirigida aos sem abrigo... Pq é mais fácil "enxotar" do que investir em soluções reais... Enfim.

Ele mostrou-me vários exemplos, livros só sobre isto... Até tem um nome, esta "corrente", mas já não me lembro qual é. Basta estar atento, para reparar.

Só mencionei isto aqui porque os bancos sem costas me parecem um bom exemplo, ainda que tímido... Parece que a mensagem é "Oferecemos espaços verdes, ocasionalmente um sítio para se sentar... mas não fique demasiado tempo... leia antes em casa que aí é q está confortável!"

Se calhar estou a ser mazinha... Mas lembrei-me que isto é uma componente essencial do urbanismo. Não basta apenas que os sítios existam, é preciso que tenham usabilidade.

Bom, e isto é já para não falar da usabilidade para pessoas com dificuldades motoras, visuais... etc.

Deviamos pensar nisto tudo, não era?

Ana Louro disse...

Concordo. No entanto não quero acreditar (embora haja evidências) que o mobiliário e equipamento urbano seja desenhado para que as pessoas não os utilizem durante “muito” tempo, especialmente os sem abrigo (outro tema que poderíamos debater aqui, pois preocupa-me muito e acho que com o empenhamento de mais algumas pessoas, além dos que já fornecem refeições quentes ou oferecem cobertores e papelões após uma noite de chuva e vento intenso como na semana passada, poderíamos ajudar a minimizar o problema).
Quanto aos bancos, e para não sermos acusados de nos preocuparmos também com isto quando há outras questões (que também nos afligem e não só aos outros que serão indiferentes aos bancos) poderíamos propor a “jovens” artistas que desenhassem ou construíssem bancos confortáveis (se calhar não se chamam bancos e há por aí alguns encostos que não confortam nada, lá está, só design sem ergonomia) e os beneméritos ou empresas patrocinadoras (a troco de publicidade) pudessem suportar alguns custos. Claro que a CML teria que ser envolvida numa iniciativa deste tipo para divulgar e autorizar. Mas estaríamos a aliar a vertente cultural à cidadania e qualidade de vida. Quando vi a quantidade de pedra que foi retirada da zona da futura esquadra de polícia lembrei-me que poderia ser dada a escultores que quisessem dar asas à imaginação e oferecer obras para os nossos jardins e espaços públicos. Estou-me também a recordar das novas tendências de design de espaços em discotecas, cafés ou explanadas (zonas lounge com almofadas exactamente para aumentar o período de estadia das pessoas, e o consequente consumo e lucro). Não, não quero que também coloquem almofadas nos jardins públicos, é só um exemplo.
Ontem em viagem tive finalmente disponibilidade para ler os posts antigos deste blog e fiquei pasma com alguns comentários (sempre anónimos). Para esses gostaria apenas de dizer que o sonho também comanda a minha vida. Embora defenda a liberdade de opinião e de expressão acho que há limites.
Tiago aproveito e dou-te os parabéns por este blog e temas que tens abordado (pois ainda não o tinha feito e são merecidos). Embora possa ser visto apenas por uma minoria de pessoas tem sido e continuará certamente a ser um contributo importante para o exercício da cidadania e melhoria das nossas condições de vida, revelando a existência de moradores com qualidades, preocupações e vontade de mudança que devem ser enaltecidas e que julgava pertencerem a uma minoria ainda maior. Bem hajam.

Tiago disse...

Obrigado, Ana. Acho óptima ideia essa de propor a jovens designers a criação dos bancos. Podíamos até envolver a MauMaus, já que eles irão ter sede no Condomínio da Torre. É uma ideia a desenvolver!

Quanto aos comentários anóninos, tive realmente que os restringir, mas não pode ser confundido com um acto censório. Qualquer pessoa pode continuar a comentar livremente, desde que faça um registo no blogger. O que acontece é que a maioria das pessoas que mandam as bocas anonimamente nem sequer se dá ao trabalho de fazer esse registo. O que é bom sinal, no fundo o que diziam não era assim tão importante de ser dito que merecesse esse trabalho.

Rodrigo Bastos disse...

Um jardim não pode ser um local de passagem....têm de ser um local onde a comunidade se encontra e convive anónimamente (ou não). Tal como o Tiago e a Joana, também sou da opinião de que os bancos são um equipamento essencial para a "vida" de um jardim. Permite-nos parar, usufruir do espaço, "respirar o ar" e "sentir" o espaço. Regenera!!!

Quem não gosta de estar sentado num banco de jardim, sentir o sol da manhã e ao mesmo tempo ler o seu jornal e ouvir os passaros (PS: espero que lá apareçam) a chilreal?

Nota: O parágrafo anterior não é uma utopia!

O conceito de jardim só como local de passagem é demasiado modernaço e frio.

O argumento dos "sem abrigo" é no minimo leviano... muito leviano mesmo, pois se é efectivamente tomado em conta técnicamente, pego nas palavras da Joana e não acrescento nem mais uma virgula: "Porque é mais fácil "enxotar" do que investir em soluções reais".

O argumento do "Oferecemos espaços verdes, ocasionalmente um sítio para se sentar... mas não fique demasiado tempo... leia antes em casa que aí é q está confortável!", é absurdo e potencia a sociedade "individualista". É uma corrente que pessoalmente tento e vou continuar a "lutar", pois vai completamente contra a o meu conceito de bairro e de vida.

Três exemplos e conceitos de jardins com os quais me identifico:

- Jardim da Serafina (Monsanto)
- Jardins frente ao Mosteiro do Jerónimos (Belém)
- Jardim Conde Castro Guimarães (Cascais)

Ricardo Soares disse...

Em primeiro lugar quero deixar aqui um reparo: na Quinta das Conchas existem bancos sem encosto e bancos com encosto, e até existem bastantes.

Concordo convosco quando afirmam que um jardim deve ter bancos, mas porque hei-de ser obrigado a estar sentado na direcção em que o arquitecto decide porque o banco tem costas? Porque não me hei-de sentar com uma perna para cada lado do banco se me apetecer? Penso que a abordagem efectuada no P. das Conchas é a ideal. Quem quer um banco para se encostar tem-no, quem quer um banco para se sentar sem estar encostado também o tem e quem quer uma mesa com bancos para jogar uma cartada ou comer uma merenda também o tem.

Já agora também acrescento que vejo mais pessoas a ler deitadas na relva do que sentadas em bancos.

Rodrigo Bastos disse...

Ricardo,

Com tão poucos bancos há que encontrar alternativas :). Mas é verdade...a relva também é um local por excelência para se ler e não só ;).

Seria interessante sabermos qual a opinião de quem desenhou o Parque Oeste.

Rodrigo Bastos disse...

Parque Oeste ou do Vale Grande – 24 hectares

Da autoria da arquitecta espanhola Isabel Aguirre é o grande e novo parque urbano, não só da urbanização, mas da cidade, o qual já está em construção desde Setembro de 2004, constituído por duas áreas distintas, uma mais vocacionada para o recreio informal, marcada por um grande lago central, que tem também uma função de contro-lo e amenização ambiental, e outra de pendor mais desportivo, onde será em breve implantada uma pista de atletismo.

Fonte: Site Habitação Social

joana disse...

Bom, estou a ver que lancei um bocadinho de confusão quando falei de design "contra" os sem-abrigo...

A primeira vez que ouvi falar, também achei inacreditável. Obviamente isto é uma corrente com origem nos EUA, a obcessão com o "No Loitering" acaba por se revelar nestes pequenos pormenores.
Andei à procura de exemplos e encontrei este artigo "How to Cure Urban Pollution" (http://www.sonic.net/~doretk/Issues/00-06%20SUM/howtocure.html), com um exemplo de Los Angeles onde se contrasta o design urbano de dois bairros com população socio económica muito diferente. Se não tiverem paciência para ler tudo, o último parágrafo é especialmente elucidativo.

Obviamente também encontrei várias coisas boas e esforços no sentido oposto. Fica aqui este link para a Living Streets, uma organização bem interessante (http://www.livingstreets.org.uk). O ponto 7 do seu manifesto vai também de encontro esta discussão dos bancos e locais para relaxar.

Obviamente não estava a sugerir que os bancos no Parque das Conchas foram desenhados propositadamente com estas ideias em mente. Mas a globalização tem destes problemas...

Ainda bem que há relva para se estar deitado e ler à vontade. E ainda bem que também já passou a moda dos sinais de "Não pisar a relva" que haviam por todo o lado.

Nota: "Loitering - to delay an activity with aimless idle stops and pauses; to remain in an area for no obvious reason."

Tom disse...

loiter |ˈloitər| verb [ intrans. ] stand or wait around idly or without apparent purpose : she saw Mary loitering near the cloakrooms. • travel indolently and with frequent pauses : they loitered along in the sunshine, stopping at the least excuse. DERIVATIVES loiterer noun ORIGIN late Middle English : perhaps from Middle Dutch loteren ‘wag around.’
THE RIGHT WORD: Someone who hangs around downtown after the stores are closed and appears to be deliberately wasting time is said to loiter, a verb that connotes improper or sinister motives (: the police warned the boys not to loiter).To dawdle is to pass time leisurely or to pursue something halfheartedly (: dawdle in a stationery shop; dawdle over a sinkful of dishes).Someone who dallies dawdles in a particularly pleasurable and relaxed way, with connotations of amorous activity (: he dallied with his girlfriend when he should have been delivering papers). Idle suggests that the person makes a habit of avoiding work or activity (: idle away the hours of a hot summer day), while lag suggests falling behind or failing to maintain a desirable rate of progress ( | she lagged several yards behind her classmates as they walked to the museum).

I hate to say it but loitering (in Britain at least) is associated with drug consumption or dealing. Something I am getting tired of seeing in our gardens.