segunda-feira, 3 de outubro de 2005

Calvanas





O bairro das Calvanas está a ser demolido para dar lugar ao Campo Novo, uma enorme área ajardinada que ligará a 2ª circular ao Passeio Público, o Eixo Central da Alta de Lisboa.

O Bairro das Calvanas começou a ser construído em meados da década de 70 em muitos casos por pessoas retornadas das ex-colónias. Apesar de ser de construção ilegal, criou-se uma situação sui generis em que as habitações estavam fornecidas de electricidade, água canalizada e rede de esgotos, chegando os moradores a pagar contribuição autárquica.

Os mais de 300 moradores constituiram no início dos anos 80 a Associação de Moradores do Bairro das Calvanas que posteriormente entrou em acordo com a CML e SGAL para a libertação dos terrenos para o projecto da Alta de Lisboa.



Actualmente são já poucos os residentes no Bairro das Calvanas. As casas vão sendo destruídas enquanto os moradores são temporariamente realojados em habitações municipais antes de se mudarem para as casas que estão a ser construídas na Alta de Lisboa.

Mesmo assim, o sr. Vítor, dono do único café do bairro que também é mercearia, o Café Oliveira, ainda trabalha todos os dias. O stock não está a ser reposto, o sr. Vítor sabe que não faria sentido, mas as saudades que já sente pelo bairro, pela casa, pelo café, atrasam-no na partida.



Em tempo de eleições é engraçado dar de caras com achados arqueológicos como este, com cerca de 25 anos, num tempo em que havia menos cartazes e mais pinturas murais.



O desaparecimento do Bairro das Calvanas, mesmo sendo muito diferente em termos antropológicos, culturais e arquitectónicos, faz lembrar Vilarinho das Furnas ou a Aldeia da Luz. O sentimento de perda nas pessoas é semelhante.

9 comentários:

Rodrigo Bastos disse...

Excelente reportagem Tiago!

Muitos de nós moradores vemos por força das circunstância nas Calvanas um "empecilho ao desenvolvimento" da Alta de Lisboa, mas, o facto é que é uma "vila" com histórias e recordações.

Tiago disse...

Tal como o eram a Musgueira Norte e Sul, e outros bairros que deram lugar à Alta de Lisboa. e, independentemente do juizo que nos dá o direito e as leis, o vínculo afectivo que as pessoas criam com as suas casas, com os seus quitais, os animais, são difíceis de quebrar e esquecer. A Alta de Lsiboa está cheia de fantasmas passados.

ana disse...

Tiago que delicia!
Talvez este post ajude as pessoas que tao facilmente criticam os PER.
Em vez de fantasmas porque nao lhe chamamos alma. Temos que descobrir mais sobre o passado da Alta.
E as quintas? o que se produzia la? quem eram os proprietarios e o que lhes aconteceu? quem trabalhava la?
Os bairros das Calvanas e Musgueira tem 30/40 anos. Esta zona e anterior a isso.
obrigada Tiago!

Pedro Veiga disse...

Tiago,

Muito bonita é esta reportagem!
De facto esta zona era bem especial. Era uma pequena aldeia dentro de Lisboa. Será que a nova arrumação dos habitantes das Calvanas irá respeitar as antigas vizinhanças? Compreende-se perfeitamente o choque das pessoas ao abandonarem as sua casas, pois aí tinham já uma vida organizada. Esperemos que o novo bairro seja adequado às aspirações destas famílias.

Paula disse...

Caro Tiago
Apesar da sua reportagem até estar bem concebida, não é 100% verdadeira, visto que no bairro não existe só um café, mas existem mais dois neste momento, a Cantina X2 e a churrasqueira S. Simão.
É triste que quando se tenta fazer uma reportagem não se investigue a fundo para o que se publica seja verdadeiro.

Paula X2

Tiago disse...

Peço imensas desculpas pelo lapso. Nunca tive a pretensão de chamar a isto reportagem, foi apenas um passeio que dei, tirei umas fotografias e mostrei-as no blog. Fiquei com a ideia que o café Oliveira era o único.

Terei todo o gosto em conhecer o seu café e mostrá-lo também. Posso passar por lá? Gostava de falar também consigo e saber mais histórias das Calvanas.

Paula disse...

Caro Tiago
Pode vir conhecer a loja quando quiser, mas se callhar era melhor ser num fim-de-semana



Paula Cantina X2

Tiago disse...

Infelizmente este fim de semana não poderei visitar as Calvanas, mas passarei quando puder por aí. Se não a encontrar volto mais tarde.

Anónimo disse...

Bom Dia,

Independentemente do eventual interesse do artigo não nos podemos esquecer do essencial: Tratam-se de pessoas que instalaram arraiais onde lhes apeteceu, com a conivência dos governos e municípios vermelhos do pós 25 de Abril, vendo-se dessa forma numa situação de claro previlégio face à restante população da cidade de Lisboa. Para agravar esta situação e à boa maneira tuga 3ª mundista, "legalizaram-se" as habitações com vista à entrada de receitas de Contribuição Autáquica e ainda se pagam indemnizações e se aceitam exigências para expulsar esta gente de terrenos públicos !!! São estas situações que me provocam revolta, indignação e me fazem vontade de deixar este país !!! Porque é que os meus pais tiveram que fazer sacrifícios a pagar um apartamento de 2 assoalhadas ao longo de uma vida (muitas vezes com sacrifício) para outros escolherem um local, colocarem uns tijolos, montarem uma vivenda de 2 andares e ao fim de 20 anos ainda receberem do Estado uns valenters milhares à conta de todos os contribuintes ??? Essa, sob o meu ponto de vista é que é a questão essencial a ser discutida, sem prejuízo de achar muita piada às pinturas da AP, do gatinho na varanda, ou da tasca do sr. não sei quantos...

Enquanto os tugas não alterarem a sua mentalidade de "very tipical" ,permissividade e compreensão em relação a estes assuntos que provocam que nos vão ao bolso todos os dias este país não vai para a frente.
PS- este é um pequeno exemplo: Odivelas e Loures têm bairros gigantes construídos dessa forma e que no final dos anos 80 foram "legalizados" e instaladas as infraestruturas de saneamento básico e arruamentos.

Como o povo tuga diz: o mundo é dos (chico) espertos....mas esta fórmula só resulta em páises tipo Somália, Ruanda....ou Portugal...

1 bom ano de 2007 para todos