quarta-feira, 9 de julho de 2008

INCREDULIDADES


Há poucos dias, discutia com colegas a aparente incongruência de, face às crescentes dificuldades do crédito, à diminuição do rendimento disponível das famílias, à generalizada – e visível – diminuição da procura no mercado imobiliário, se continuar a apostar no segmento médio da construção civil.

Que se aposte no segmento alto – ainda que o “luxo” por cá anunciado de luxo tenha muito pouco para além do valor de venda pedido – ainda se percebe: pelo menos na aparência as classes mais favorecidas passam incólumes por estes períodos de recessão, ainda que, sendo por natureza um mercado mais restrito, algumas cautelas se continuem a impor para quem nele queira apostar.

Que se construa para o segmento baixo depende quase exclusivamente da vontade e da acção política, sendo portanto não um mercado de risco, antes um mercado de oportunidades para empreiteiros e não para construtores civis.

Mas para a classe média, quando não faltam no mercado de primeira ocupação unidades e unidades há meses (ou anos) à espera de comprador?


Veja-se o caso da Alta: quantos dos que nos lêem e que por aqui habitam não têm no seu prédio um ou mais apartamentos desde sempre desocupados?


Chegaram-me estas perplexidades depois de encontrar pelo segundo dia consecutivo uma campanha cuidadosamente dissimulada como aparente notícia sobre um novo empreendimento a ser lançado brevemente no espaço da Alta de Lisboa por um promotor externo à SGAL. O conceito subjacente é a de que os dois edifícios são diferentes de tudo o que já existe, mercê de uma aposta num conceito filosófico de vida alternativo, com materiais “de última geração” e uma liberalidade de escolha de materiais de revestimento interiores de acordo com o desejo dos compradores. Mas será assim tão diferente? Confesso que a referência a amplas áreas envidraçadas e as imagens publicadas dos alçados me fazem lembrar as áreas envidraçadas aplicadas em alguns edifícios já existentes – e os horrores de calor que o efeito de estufa subsequente provoca nos seus habitantes, superior ao prazer que as vistas amplas do Parque Oeste lhes provocam.


Investir no imobiliário em Portugal parece, quando nos colocamos um pouco à margem da emotividade e das relações de conhecimento, profissionais ou de amizade que este país diminuto necessariamente provoca, uma actividade de amadores. Amadores que, malgré nous!, somos quase todos os que compramos, atirados para a compra por um Estado displicente e uma Banca ávida de lucros. Mas amadores os empreendedores também, fruto da pouca exigência do cliente e da morosidade na resolução dos processos litigiosos. Quantos queixosos em Portugal se viram ressarcidos pelos defeitos de concepção, construção ou manutenção dos seus apartamentos?

14 comentários:

Anónimo disse...

http://uptownlisbon.wordpress.com/2008/07/08/lx-condominium-the-solution/

Anónimo disse...

e os horrores de calor que o efeito de estufa subsequente provoca nos seus habitantes, superior ao prazer que as vistas amplas do Parque Oeste lhes provocam.

Quem desdenha, quer comprar...

Pedro Veiga disse...

Óptimo texto! De facto o "Zen Park" é um empreendimento que é lançado com frases publicitárias ricas em sinónimos de bom ambiente e de óptima habitabilidade. Mas só se for no interior das casas porque viver em cima do eixo norte-sul não será a opção mais saudável.

Mr. Steed disse...

o empreendimento fica em cima do eixo norte-sul? ahahah...que palhaçada!

Pedro disse...

Sim, e quem comenta já comprou não é? Ainda bem que as leis da física diferem de acordo com o ponto de vista do utilizador. Hurra pela teoria da relatividade!

Anónimo disse...

Boa sorte para o negocio!
Tem muitos numeros para ligar nos JSB e C. Parque (boa escolha).

155torre disse...

"e os horrores de calor que o efeito de estufa subsequente provoca nos seus habitantes, superior ao prazer que as vistas amplas do Parque Oeste lhes provocam.

Quem desdenha, quer comprar..."

e quem oferece, quer largar... não é o seu caso? não me diga que está absolutamente satisfeito/a pela habitação inspirada nos países nordicos que tanto apelo fazem à falta de sol... Graças a deus e à inteligência de quem me criou que não comprei ai!!!

e ... claro fiz o investimento da minha vida... tenho casa na pérola de Lx... avaliada em mais de 500 mil euros e com vista para o cine-conchas!!!

Anónimo disse...

Já me tinha interrogado sobre este assunto. Acho que a SGAL deve apostar forte nos equipamentos e acessibilidades antes de arriscar a lançar mais algum empreendimento.

De facto existe um grave problema térmico nos JSB (nas fachadas Sul - aquecimento) que ocorre durante um determinado período do ano, quando o Sol está mais baixo e as temperaturas ainda são elevadas. Muita tinta já se escreveu sobre este assunto. Felizmente que me considero uma pessoa inteligente. Minorei o problema. Mas fiquei desiludido por acreditar na qualidade da construção e dos materiais alpicados. Horrores de calor superiores ao prazer da vista?... naqueles dias impossíveis... mas nesses dias de Sol também temos o Parque Oeste ali ao lado para disfrutar. Continuo a achar que fiz um belo investimento gastando com certeza menos 500 mil euros, nem 400 ou 300! A vista panorâmica da sobre o Parque Oeste é única e a proximidade (suficientemente longe para não incomodar) ao Eixo NS fazem dos JSB um emprendimento único na Alta. Se voltasse a 2003, voltaria a investir aqui.

BO

Anónimo disse...

"e os horrores de calor que o efeito de estufa subsequente provoca nos seus habitantes, superior ao prazer que as vistas amplas do Parque Oeste lhes provocam"

Só uma questão: por acaso sabe do que está a falar? Eu vivo num apartamento dos JSB, desfruto de uma vista magnífica do Parque Oeste (e dos inefáveis pôr-de-sol...) e não sei do que está a falar! Tem conhecimento, certamente, de soluções para a quebra do sol vindo das janelas, como, por exemplo, polyscreens? Já nem falo da instalação de A/C, já feita por diversos condóminos.
Continuo sem perceber porque é que, amiúde, insistem os nossos vizinhos em desvalorizar um investimento que fizerem, ainda por cima sem razão nenhuma - ou se calhar era melhor viver num prédio com 70 anos, de tabique, na Lisboa Antiga? Esses sim, têm condições de segurança e conforto... Abram os olhos!

Anónimo disse...

Uma coisa é certa, nunca quis desvalorizar investimento que fiz. Que o problema existe, existe. Os materiais aplicados não são os adequados e devia ter sido prevista uma solução exterior. Minorei o problema com telas adequadas e sem recurso a AC. Com certeza que há pessoas que toleram melhor o calor do que outras.
Contudo concordo num ponto com o anónimo meu vizinho: não há preço que pague aquele pôr-do-sol.

BO

Anónimo disse...

Estou temporariamente a viver num predio de tabique sem garagem nem arrecadacao numa zona tipo Alta. Ja nao aguento mais.
"Meninos nao corram que caiem em cima do vizinho!"
"E pa, hoje estive duas horas a procura de estacionamento, amanha peco uma bicicleta a um colega para vir para casa!"
"Bom, trazer a bicicleta ao colo para cima e obra"
"Mas nao ha lugar para nada,uma arrecadacao dava tanto jeito!"
"Ontem vi o vizinho do lado a olhar ca para dentro. Fecha a janela!"
"Esta tanto calor, abre a janela"
"Fecha a janela olha o vizinho tarado"
Quem ca dera a minha casinha na Alta, com vistas amplas sobre o parque. Com uma sala que da para jogar a bola"
Com uma lavandaria so para mim.
Com lugar para estacionar e arrecadacao para arrecadar.
Com uma cozinha maior do que as que tenho tido toda a minha vida.
Com casas-de-banho na quantidade perfeita pra nao haver zangas em casa logo pela manha.
E com vizinhos da frente civilizados, simpaticos, com criancas da idade dos meus filhos.
O que e que eu podia pedir mais?
Ah sim, um pais com menos sol, menos luz, menos perfumes, menos polens?!
Nao, obrigada!
Tiago porque nao vendes?
Talvez te consiga comprador.

Pedro disse...

Como quase sempre nestes comentários, acaba-se por discutir o acessório em detrimento do essencial (sendo o essencial deste post, para quem teve dificuldades em o entender, o excesso de oferta no mercado imobiliário para a classe média e o aparente amadorismo de todos os intervenientes, traduzido na desajustada relação qualidade/preço que se verifica na maior parte dos casos).

Respondendo ao anónimo que me pergunta se sei do que estou a falar:

Depreendo que questiona a minha afirmação de que existe efeito de estufa nos apartamentos com grandes áreas envidraçadas. Se eu não sei do que estou a falar, se não existe esse efeito, os físicos deste mundo andam todos a inventar teorias que não se verificam na realidade, o que transformará as subvenções e os subsídios a tão numeroso grupo de cientistas um deplorável dispêndio de recursos públicos e privados... Só não percebo é porque depois refere soluções para o problema que diz que desconhece - terá colocado no seu apartamento as protecções térmicas nas janelas e o sistema de ar condicionado na sala? Porque é que o fez, se não existe problema?

E agora pergunto-lhe eu: tem conhecimento da legislação nacional que existe desde os anos 90 que visa o aperfeiçoamento das características térmicas dos edifícios de habitação de modo a tornar o seu conforto interior cada vez menos dependente de intervenções posteriores ou de sistemas electromecânicos de condicionamento ambiente? Tem conhecimento de que, nos últimos dois anos, tem vindo a ser implementada a reforma dessa mesma legislação no sentido de tornar ainda mais eficientes energicamente os referidos espaços, legislação que, a estar em vigor na altura do licencimento do seu edifício, o impediria de ser licenciado?

Os tempos são cada vez mais de racionalização dos espaços e da construção e estão cada vez mais longe os novo-riquismos de gastos energéticos avultados no aquecimento e arrefecimento das habitações quando a técnica e a ciência já permitem projectar soluções passivas que substituam com êxito a recorrência a esses métodos. Consegue disfrutar do pôr-do-sol no seu apartamento a 20º? E então? Deixou de ter efeito de estufa ou antes passou a contrariá-lo com o motor do seu split na máxima potência?

O que está em causa, não é se a sua casa é melhor do que a minha ou se existe uma campanha para lhe desvalorizar o investimento ou o discernimento imobiliário. Esse tipo de angústias é próprio de quem se sente inseguro nas suas opções de vida o que - concordará comigo - por pertencer ao domínio priovado de cada um, não interessa nada aos participantes deste blog pelo que nele não tem cabimento.

Por isso, de cada vez que alguém referir características de um edifício que, por acaso parcialmente lhe pertence, características que são mensuráveis e comprováveis, não o tome como uma ofensa pessoal, principalmente porque ninguém o conhece (e mesmo conhecendo, pelo menos eu, teria mais que fazer que estar a perder tempo a demonstrar que não sabe escolher casas!). São constatações, assim como foram, por exemplo, no passado, as constatações de que os revestimentos de pedra de alguns edifícios estavam mal fixados (porque cairam sem ninguém lhes tocar) ou os materiais de revestimento dos pisos térreos de outros tinham sido mal escolhidos (porque foram facilmente vandalizados). Ninguém se queixou de que lhes estavam a dar cabo do valor dos apartamentos ou ninguém entendeu isto como um ataque pessoal.

Para terminar, volto a escrever o que já escrevi acima: ainda bem que cada pessoa reaje de maneira diferente aos mesmos estímulos e que as sensaçoes de conforto e bem-estar - ainda que tipificáveis - são intrinsecamente subjectivas. É por isso que, para um habitante dos trópicos, 20ºC é temperatura de Inverno e para um lapão é um calor de ananases.

Seja feliz pois. Cada um come do que quer e é por isso que, neste mercado, ainda há tanto investidor a sobreviver.

Pedro Veiga disse...

De facto grande parte dos comentários foge à ideia principal do post: o desequilíbrio entre a oferta e a procura de habitação. Os apartamentos mais modernos têm em média melhores condições do que os antigos. Isso é um aspecto que conta muito. Pena é quando as novas construções de prédios para habitação são feitas em lugares já com factores que afectam negativamente o ambiente envolvente, como é o caso da excessiva proximidade de uma auto-estrada. Insiste-se de uma forma absurda num erro urbanístico apostando no facto de haver quem só ligue para o interior da casa.
A propagação destes erros torna o espaço urbano muito fechado, sem espaço para respirar.

Anónimo disse...

Eu q já sou da 3ª idade e lembro uma frase que sempre teve e continua a ter aplicação "não há bela sem senão"!
Acho que a Alta de Lisboa continua a ser uma boa aposta!
Os condomínios e condóminos também podem fazer algo de útil pelos empreendimentos e pelo seu desenvolvimento.
Chamo também a atenção de que se deve pugnar pela melhoria dos que cá habitam e trabalham, em vez de perderem tempo e energias em detalhes, julgo que por vezes só pelo prazer do mero exercício de poder.