segunda-feira, 17 de abril de 2006

Coisa em jeito de adeus

Caminhava hoje por um bairro antigo de Lisboa e, de repente percebi, ao olhar as casas decrépitas, ao tristemente olhar os anos e anos de fado penurioso inscritos nos rebocos fracturados, nos telhados abaulados, nos ferros corroídos e nas tintas desbotadas, percebi - estou a despedir-me.

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(Talvez me esteja a despedir de uma imagem criada pela esperança programática de uma geração que não se deu bem com a realidade, espécie de SNI esquerdista em final de ideologia. Talvez me esteja a despedir das minhas esperanças em ver a história não só reconquistada mas viva, lutando por se ligar à realidade do presente e sobreviver.)

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Mas é uma despedida.

Mesmo desprogramados, mesmo aleatoriamente dependentes da vontade de promotores alheios a preocupações urbanísticas, de negócios de ocasião, de oportunidades criadas por decisões desligadas de um percurso coerente, os processos urbanísticos desenvolvem-se e com eles a cidade. Lisboa desenvolveu-se assim, fugindo primeiro ao rio e fugindo nas últimas décadas aos bairros que a iniciaram.

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Fugiu por pavor, enquanto a memória de um Tejo Adamastor perdurou; continuou por hábito, quando esta esmoreceu; persistiu por inércia quando, nos novos aterros ribeirinhos, se optou pela instalação de incipientes indústrias ou actividades navais; e insistiu, porque se tornou um hábito.

E depois fugiu de medo. Medo de desfear, medo de perder, medo de ousar.

No princípio do século vinte, na febre de um desconhecido chamado progresso, quis-se abrir espaçada avenida entre o Chafariz de Dentro e o Castelo. Públicos nomes puxaram das suas insígnias olisipógrafas e trouxeram para o medo público a oposição. E o "boulevard" não se fez. E nada se fez, porque o importante - manter a ideia romântica de um bairro de ruas apertadas, casas pequenas e habitantes modestos, fadistas e apaixonados - tinha sido garantido (bem como a insalubridade dos espaços, a pobreza do bairro, a decadência dos edifícios).

Desde então, pela cidade histórica, pela cidade núcleo, pela cidade intrínseca, nada mais se fez.

Mesmo a política preconizada pelas vereações de Sampaio e Soares nada poderia fazer, condenada que estava pela incompatibilidade entre duas das suas ideias-chave: auto-sustentabilidade e anti-gentrificação.

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Mas tudo isto é passado. Tudo isto poderia ser facilmente ("facilmente"...) alterado caso houvesse coragem, vontade, percepção correcta dos problemas e das soluções.

Se...

Se o crescimento populacional do país fosse um facto e se não se tivesse apostado (ou deixado apostar) nas novas urbanizações no interior da cidade como forma de resolver o problema dos bairros de lata e a falta de fundos nos cofres edis. Não deixando espaço para novas ideias, não abrindo caminho para novas ocupações. Não abrindo caminho ao futuro.

E assim, despeço-me lentamente (porque é uma morte lenta) dos restos da cidade antiga. Abandonados ou sujeitos à ocupação pontual por outras culturas (talvez seja este o seu melhor fim - a revitalização por uma população que se mexe), os bairros antigos perecerão por falta de população suficiente para tantos fogos. Os liceus fecharão por falta de jovens caras ocupantes, seguidos dos hospitais centrais, cada vez mais reduzidos a paliativos prestadores de cuidados geriátricos. O comércio será uma miragem, ao longe, nos periféricos e emprendedores centros-comerciais. A vida, na luminosa atmosfera da beira-Tejo, deprimente e sem futuro, um gigantesco cemitério de vidas passadas, de pensionistas abandonados por um Estado iludido e em penúria e de jovens esparsos envelhecidos antes de tempo.

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Enquanto isso, no extremo da cidade, os cidadãos da nova esperança do viver esperam, entre o reivindicativo e o conformado, pelo cumprimento das promessas, pelos acessos, pelas infra-estruturas, pelo policiamento, pela urbanidade dos vizinhos, pela qualidade de vida inscrita no contrato-promessa mas estranhamente esquecida nos acabamentos do apartamento.

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4 comentários:

Tiago disse...

Que texto magnífico, Pedro. Perturbador e deprimente na forma lúcida como vê a morte de Lisboa, no alheamento das pessoas perante essa perda que poderá ser irreversível.

É um paradoxo, este de estarmos a fazer um blog sobre a Alta de Lisboa e de repente dá-nos um acesso de nostalgia e tristeza pelo adeus da cidade que conhecemos desde sempre. Essa cidade que percorreste é a cidade onde nasci, onde cresci, que amo intensamente mas onde não consegui encontrar solução de habitação por sucessivos erros políticos.

Acho que textos como o teu fazem, por muito pouco que seja, algo pela salvação dessa cidade, se o forem lidos e reflectidos.

Quanto à Alta, para que não caiamos de novo em mal-entendidos, que toda a nova cidade o fosse assim, projectada, idealizada. Não é comparável a Alta de Lisboa ao Cacém, a Santo António dos Cavaleiros, a Sacavém, a Odivelas. E eu sei que tu sabes isso. Que toda a nova cidade tivesse apenas os erros e defeitos da Alta de Lisboa... Seria bem mais fácil recuperar a Lisboa linda e antiga que nós amamos, porque a qualidade geraria riqueza e patamares mais elevados de exigência.

Porém, vícios de personalidade, vivência e práticas impunes, permitem que apesar de se tratar a Alta como projecto urbanístico de referência, a qualidade da execução, das habitações, equipamentos ou acessos seja por vezes uma cópia das soluções pifadas dos subúrbios.

Como se mudam as mentalidades? Lisboa terá ainda tempo para esperar?

João Tito disse...

Pedro este texto é magnífico. Estamos mesmo a perder a alma da nossa cidade, muitas asneiras foram, estão e serão feitas, mas questiono-me come será Lisboa dentro de 50 anos? muito diferente seguramente, vamos perder muito mas também acredito que se vai ganhar algum coisa a minha grande dúvida é se Lisboa continuará a ter a mesma alma, que quer s queira quer não hoje ainda tem.
No outro extremo da cidade os cidadãos acreditam que se refilarem pelo menos ficam com a consciência que tentaram.

E para terminar, VIVA A UTOPIA!

Pedro Veiga disse...

Será decerto diferente da actual. Teremos daqui a 50 ou 100 anos várias áreas em profunda decadência, inseguras e onde pouca gente quererá lá ir, ao lado de outras mais vividas em torno dos grandes centros de comércio e de lazer? Ou será que a grande crise energética que começa agora a dar os primeiros passos transformará por completo o nosso viver, permitindo o aparecimento de pequenas comunidades sócio-rurais autónomas, com o comitante esvaziamento das grandes metrópoles?
Eu, sinceramente, penso mais na segunda alternativa pelos documentos que tenho lido nos últimos tempos. Estamos no limiar de grandes transformações sócio-económicas. Se conseguirmos vencer o dilema do crescimento económico poupando e reciclando a matéria e a energia, então caminharemos de certeza para uma sociedade mais equilibrada e menos injusta.

Pedro Veiga disse...

A última fotografia está óptima e representa o morro inacabado do Parque Oeste. Ultimamente tem lá estado uma personagem sentada na cadeira, como que desesperando. É bem provável que este parque seja para já apenas para servir de pano de fundo ao lançamento do novo projecto imobiliário da SGAL. Só assim se justificam quase 2 anos de obras que deveriam ter demorado apenas 7 meses! É incrível como ainda o imobiliário tem força financeira para pagar este tipo de embustes!
Parabéns Pedro pelo excelente post!