sábado, 6 de agosto de 2005

Ora digam lá se isto não é uma utopia tornada realidade!

Em França, num clube que milita actualmente na 2ª divisão dos distritais, o Web Football Club, as decisões técnicas são tomadas pelo universo de utilizadores do site. Opções como a táctica, a equipa titular, os marcadores de penalties, o treino específico ao longo da semana, são votadas pelos internautas que seguem atentamente o clube e rendimento da equipa. A influência de cada treinador modifica-se com o acerto das opções tomadas. Assume-se que é uma sociedade de elites, onde alguns decidem mais que outros, mas porque decidem melhor e não por razões menos relacionadas com competência.



O 4º lugar num grupo de 12 na época transacta não foi suficiente para continuar a ascenção meteórica de divisão em divisão que o WFC tem tido nas últimas épocas. Mesmo assim, o saldo é excelente!

Mas o interesse desta questão não é desportiva.

O céu está carregado de fumo, o ar, pesado, é difícil de respirar. Portugal repete todos os verões o pesadelo dos incêndios florestais, o pesadelo de uma classe política incompetente, irresponsável e infantil na sua própria desresponsabilização. Pouco foi pensado ou precavido. Os discursos de pesar e promessas de medidas urgentes são repetidos segundo a minuta utilizada no ano anterior. As populações juram votar na oposição na próxima oportunidade, num protesto de buzinão, irado, sem propor soluções, sem consciência do logro do voto de reacção.

A escolha política é meramente clubística, sem critérios objectivos além dos afectivos. A devoção partidária é quase sempre herdada dos pais. Se existe vontade de contrariar os pais, o voto passa para o partido oposto, mas raramente é verdadeiramente pensado. Daí a crescente pobreza do discurso político, o ridículo a que os cartazes eleitorais chegaram, o vazio das propostas, as mentiras usadas sem qualquer pudor. As nomeações políticas desavergonhadas só possíveis pela inércia dos eleitores.

Daí também a estúpida necessidade de rotular as pessoas de serem de esquerda ou direita para simplificar a análise do discurso. Há dias vi a Alberta Marques Fernandes, no início de uma entrevista de 15 minutos, a perguntar ao José Sá Fernandes em que quadrante político se inseria. No início da entrevista, sem falar sequer das propostas da sua candidatura. Qual é a relevância? É como ajuizar a qualidade de um quadro ou sinfonia sabendo de antemão a autoria da obra, pelo argumento de autoridade, sem avaliar realmente a obra em si.

É mais fácil avaliar a competência de um treinador de futebol que de um autarca. A diferença de golos marcados e sofridos é mais do que objectiva. Seria um bom exercício de férias para todos nós pensarmos no que queremos realmente quando votamos para as autárquicas, as legislativas, europeias ou presidenciais. Para que o voto não seja meramente afectivo, como ser do Benfica ou do Sporting.

O nosso sistema político funciona realmente? Mesmo que seja o pior a seguir a todos os outros, é suficiente? Não é já tempo de pensarmos que a acção parte de nós? Que os senhores que são eleitos para o Estado têm responsabilidades perante nós? Quanto tempo mais vamos pactuar de forma estupidificante (ora o silêncio e alheamento, ora a revolta fácil do buzinão) com a corrupção, a incompetência e a vigarice da nossa actual classe política?

Uma solução como a do WFC pode não ser fácil de aplicar, pode até ter demasiados defeitos para ser benéfica, mas lá que dá vontade, dá!

9 comentários:

Anónimo disse...

Pelo menos não temos atentados ;)

ana disse...

o que o faz ter tanta certeza de que nos nao estamos na lista desses tarados, caro anonymous?

Ha uns dias perguntava-me qual o plano do presidente da camara para a alta de lisboa?
"os politicos" em Portugal, nao tem formacao para os cargos que tem?
pessoas competentes receiam o envolvimento na politica, porque afinal quais sao os beneficios?

quem beneficia com os fogos?
quem beneficia da existencia de florestas/matas?
quem paga aos bombeiros?
qual e a diferenca em numeros entre bombeiros sapadores e bombeiros voluntarios?
quando foi a ultima vez que o leitor fez um donativo ao grupo de bombeiros do seu bairro/vila?
Ja pensou em se voluntariar dois dias por ano para limpar uma das matas nacionais, ou a do seu vizinho ou mesmo aquela que herdou dum seu avo mas que nem sequer sabe onde fica?

Anónimo disse...

Desculpe lá ana,mas não vive na América? Então está mais que explicado esse seu temor com a segurança.Acredite que este cantinho ainda é um paraíso para viver e a possibilidade de termos cá atentados é tanta como eu ganhar o euromilhões.Cá em Portugal os cargos políticos não são atribuidos por formação mas sim por cor politica,depois vem a cunha e se tiver habilitações para tal melhor,senão tb não faz mal,claro que há excepções.

ana disse...

vivi tambem em Londres e nasci em Portugal sob uma ditadura.
talvez assim ajude tambem a explicar o temor.
nao ha e explicacao para a sua falta de temor. Acha que pessoas que se dedicam a aterrorizar outras acreditam em cantinhos paradisiacos e em "criterios ""perfeitos"" para escolher quem aterrorizam?
Em relacao aos politicos ha excepcoes, mas a cunha, a cor politica e a corrupcao sao a regra!
Para um pais tao lindo e uma pena.
Vamos ter esperanca na geracao que se segue

Anónimo disse...

Eu acredito é que os terroristas têm causas que acreditam e que estão dispostas a morrer por elas.Diga-me lá quais as políticas que Portugal tem que vão contra essas mesmas causas ? E não vale a pena falar da meia dúzia de portugueses que estão no Iraque.Somos alguma potência mundial ? Já fomos,já fomos...
Mas já estamos a desviar um pouco do assunto deste blog.

ana disse...

e verdade.
perdao Tiago!
De qualquer forma nao se esqueca que a "causa" inclui o territorio portugues.
Oh ja se esqueceu que a alta de lisboa ja fez parte dum grande imperio em que a lingua transmitida de mae para filho era o arabe e a religiao o islao!

Tiago disse...

Não é necessário pedir desculpa. Acho que o tema do posto não tem nada a ver com terrorismo. E acho que podemos e devemos discutir aqui tudo o que nos apetecer, apesar da temática principal do blog ser a Alta de Lisboa. No entanto, estas questões não são estanques, e os habitantes da Alta de Lisboa, como de qualquer outra freguesia, estão sujeitos à governação eleita por sufrágio universal.

O que quis discutir foi, em primeiro lugar, a materialização de um sistema democrátuco assente na competência das opiniões, em segundo, a necessidade das pessoas encontrarem dogmas e preconceitos por preguiça intelectual.

Anónimo disse...

Ninguêm fala do segurança que foi morto a semana passada a tiro na Alta de Lisboa?
Não sei é a qual condominio ele pertencia...

Anónimo disse...

e verdade tambem ouvi falar disso o que e que aconteceu?