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A minha ética é a ética da lei", ouvi ontem na Quadratura do Círculo alguém citar Pina Moura. Para além de não ser original, o senhor não é, nem de perto nem de longe, caso único neste país. Da experiência que já levo de contactos profissionais com autarquias, empresas e serviços públicos deste país, esta é - pelo menos oficialmente - a regra a seguir. Acho muito bem.
O que já não acho tão bem é a regra parar por aqui. Seja por formação, seja por deformação, a muitos o estrito cumprimento da lei parece ser suficiente para garantir um sono descansado após um dia pleno de cumprimento do dever. Ora um pouco de sensibilidade e bom-senso para analisar as consequências que poderão advir dessas acções não faria mal-nenhum, servindo antes para diminuir eventuais prejuízos a terceiros e, principalmente, para evitar o alargar do fosso permanente que existe em Portugal entre a coisa pública e os cidadãos.
Porque é que temos sempre de lidar com esta coisa do "eles" e do "nós"?
Vem isto a propósito do mais recente espectáculo montado no Lumiar pelos executantes do último troço do Eixo Norte-Sul, em vias de conclusão (pelas minhas contas, que sou distraído e não sigo todas as declarações do ilustríssimo Presidente da nossa Câmara a inauguração irá ter lugar algures entre os meses de Abril e de Maio... deste ano) - a demolição do prédio contíguo às instalações do Mercado cuja altura colidia com as cotas de trabalho do tabuleiro, a qual começou cerca das 23:30 do passado dia 19. Uma quinta-feira. Sim, onze e meia da noite. De um dia de semana.
Antes que os habituais guardiões da VERDADE-E-DA-DECÊNCIA me venham acusar de não ler o que está escrito na lei e de começar a ofender sem razão, acrescento desde já que não tenho dúvidas de todos os trâmites legais terem sido seguidos. A lei do ruído - elaborada para proteger os cidadãos... de ruídos incómodos nas horas de descanso... - permite que se ocupem as horas de sono de uma população com o ruído proveniente da demolição de um edifício de três andares - desde que em nome do bem público e devidamente autorizado pelos serviços municipais.
Eu também sei que, a ser feito durante o dia, a confusão provocada pelo corte da rua seria enorme. Mas que diabo: não há sábados? Não há domingos? Tinha mesmo de ser durante a noite?

É que o facto de se saber que a lei foi observada não alegra quem tenta adormecer embalado por um ritmado "bum-bum-bum-traaaaaaaaaack!!!" que lhe chega do exterior. E fica-se chateado. Concerteza que se fica chateado.


E já agora: também andei à procura da lei que permite que os empreiteiros mantenham as imediações exteriores do local de uma obra pública imundas por via dos trabalhos realizados, mas essa não a encontrei. Custava muito manter os passeios limpos de terra e da areia usadas para tapar buracos e colmatar tapumes? É que já não bastava a exiguidade do passeio e o risco de se ser atropelado por um autocarro mais apressado a cortar caminho também ter de circular como se num caminho de cabras se tratasse...

Seria possível um bocadinho mais de consideração pelos concidadãos? Seria possível promover uma limpeza periódica? Talvez por alguns dos funcionários que descobrem um tempinho livre a meio da jornada de trabalho vespertina para beber uma mini num dos cafés das redondezas?
Obrigadinho, sim?