Cidade múltipla e misturada, então, de raças, classes sociais, gastronomias, idades, sexualidades, profissões, culturas, religiões, sensibilidades, expressões, capacidades físicas ou de resistência, conhecimentos, gosto e manias.
Cidade que medimos, complexa, pela capacidade de surpresa ou de imprevisto que cada dobrar de esquina, ou canto, ou beco, nos vai trazer de novo, proporcionar.
Cidade onde aprendemos a tolerância de que a nossa excessiva individualidade irá continuadamente precisar. Cidade como o lugar geométrico perfeito para as nossas mais completas ambições, porque povoada de muitos outros homens diferentes de nós ou iguais a nós; onde crescemos com experiências outras (que herdamos); onde evitamos ou sobrepomos erros; onde construímos, em conjunto, a continuação dessa ou de outras cidades.
Onde passeamos, livres, no meio do espaço público que as diversas moradas deixam vazio e significante entre elas: nas ruas, nas avenidas, nas praças, nos largos, nos parques, nas travessas, nas escadarias, nas marginais, sob as pontes, nos miradouros, à sombra nas esplanadas, ao sol nos terreiros, nos mercados, nos cafés, nas livrarias abertas à noite, nos cinemas, nos teatros, nos passeios ou nas alamedas de algum escondido jardim.

Um dos perigos da cidade actual seria a massificação. A massificação não é produto de consensos, é antes uma programação concertada para adormecer desejos, pulsões e subversão, encaminhando as «massas» para «paraísos» prontos, fáceis, baratos, garantindo não ser necessário preocuparmo-nos com muito mais, porque, agora, o acessível consumo (e a «escolha») seria o máximo a que a espécie humana poderia ter tentado alguma vez almejar chegar. Estão nesta categoria, e nesta lógica, os automóveis, as auto-estradas, os «pacotes de férias», a programação das televisões, o monopólio narrativo e ideológico do cinema americano, as cadeias de «fast-food», os centros comerciais e... os «condomínios privados» (ou «fechados», ainda não percebi como é que gostam mais).
«Condomínio fechado» é o nome de um mais ou menos recente truque de marketing que se aproveita das desinteressantíssimas aspirações da «classe média», pelo lado dos pavores que lhe povoam os sonhos, «terrores» que os «media» divulgam e exploram e cujas causas (ou pelo menos a localização) são geralmente atribuídas à cidade («selva de betão»): criminalidade, pedofilia, sinistralidade viária, sida, toxicodependência, violações, terrorismo, etc.
Em «Especial EXPRESSO Dossiês - Condomínios de qualidade - a chave do seu conforto», saído recentemente com o EXPRESSO para vender publicidade imobiliária, lê-se a seguinte «definição»: «O conceito 'condomínio privado' assenta num princípio de qualidade de vida proporcionada por um conjunto de características que lhe são inerentes e que poucos lhes garantem.» Depois de La Palisse, sucedem-se algumas das inerentes e publicitadas pouco usuais (?) características: «privacidade; tranquilidade; segurança; superior qualidade de construção que garanta conforto através de uma boa exposição solar; áreas amplas; excelentes isolamentos térmico e acústico; facilidade de manutenção; facilidade de acessos; infra-estruturas de lazer e bem-estar; zona envolvente atractiva», seguindo-se, depois, a promoção de mais umas quaisquer «villas» ou «varandas» ou «residences».
Todos os anúncios oscilam sempre entre o «verde» (ou uma certa ideia de «verde», geralmente muito mais artificial que a vilipendiada «selva de betão») e as «portas blindadas», que, numa simbólica fácil, poderíamos fazer coincidir com um desejo de não comunicação, contacto, «infecção».
Assim, são recorrentes os «oásis», os «jardins com bosque», as «amplas zonas verdes completadas com piscina» - um estranho caso, referia um «átrio interior (com) uma piscina envolvida por zonas verdes» -; a proximidade de algum clube de golfe também é bastante repetida e encontrei ainda uma «zona verde com pinhal, circuito de manutenção e 'putting green'», que, não sabendo o que é, associo a jardineiros de rabo para o ar a «pôr o verde», pacientemente, laboriosamente (embora o relato também me assegure, a dado ponto, que «todas as áreas dispõem de rega automática», o que só teria como inconveniente poder vir a molhar desnecessariamente os esforçados jardineiros).
Quanto ao capítulo segurança, as opções são imensas e os «condomínios têm sempre segurança 24 horas por dia», as portas são «de aço» embora «disfarçadas» com PVC (plástico) ou «madeira maciça», as janelas são «reforçadas a aço» (e têm «vidros duplos e laminados nos pisos 0»), «os portões exteriores são em aço»; há mesmo um caso de uma «porta de entrada das moradias de aço, com fechos de segurança ...», o que, a ser assim, convenhamos, é levar a obsessão pelo aço um pouco longe.
Numa entrevista informal é atribuído a uma tal Patrícia Santos, «25 anos, gestora de projectos ('account')» - personagem fictício? -, a seguinte frase: «Apesar de ter alguns prédios à volta, quando se está dentro do condomínio não se percebe, dando a sensação que estamos isolados e longe da confusão da cidade.»
Esta parece ser, finalmente, a grande vantagem promocional destas «coisas»: «Pode desfrutar do que mais valoriza na vida: a família, o conforto, a tranquilidade e a segurança», o slogan para estes «novos» modos antiurbanos, anticidade, anti-solidários e muito, muito monoclassistas.
A mesma jovem «account» (que, significativamente, recorde-se, se chamaria «Patrícia») termina o seu depoimento aconselhando-nos a viver em condomínios privados, mas clarificando, do alto dos seus preconceitos de classe: «As pessoas têm que se lembrar que, por vezes, não é bom para toda a gente. A uma pessoa mais suburbana se calhar não lhe interessa muito.»
Esta Patrícia, portanto, não gosta de suburbanos; já vimos, também, que não gosta de urbanos; do que ela gosta, mesmo, é de estar sozinha, «isolada» da cidade, numa espécie de redoma, em «conforto, tranquilidade e segurança».
Esclarecedor.
Texto e fotografias de
Manuel Graça Dias, publicadas no semanário Expresso