O relato que o DN publica hoje da prisão forçada e do isolamento dos idosos que já não conseguem descer e voltar a subir as escadas dos prédios sem elevador onde habitam é desoladoramente triste.
Reflete não só o abandono dos velhos pelas suas famílias, dada a lufa-lufa quotidiana da casa-emprego que lhes retira tempo e humanidade, mas também retrata a vida dos bairros da Lisboa antiga, com prédios envelhecidos e desocupados, à espera que os últimos inquilinos partam de vez para serem deitados abaixo e reerguidos a preços exorbitantes.
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Idosos sem culpa em prisão domiciliária
Sónia Morais Santos
Reflete não só o abandono dos velhos pelas suas famílias, dada a lufa-lufa quotidiana da casa-emprego que lhes retira tempo e humanidade, mas também retrata a vida dos bairros da Lisboa antiga, com prédios envelhecidos e desocupados, à espera que os últimos inquilinos partam de vez para serem deitados abaixo e reerguidos a preços exorbitantes.
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Idosos sem culpa em prisão domiciliária
Sónia Morais Santos
Paulo Spranger
Entre a dona Albertina e a rua há 68 degraus. Quatro andares. Entre ela e o bulício da Baixa lisboeta há uma barreira intransponível. Albertina Costa tem 82 anos e não sai de casa há cinco. "Já viu o que é, minha querida? Cinco anos aqui fechada? O que me vale é a janela. Sento-me aqui, tenho esta almofadinha para apoiar os braços e fico a ver quem passa. É triste. Mas é a vida."
A vida da dona Albertina ficou reduzida às duas pequeníssimas assoalhadas do seu quarto andar sem elevador quando, há cinco anos, caiu das escadas e partiu a bacia. "Desci um andar de rabo que foi uma pressa! Quando parei pensei que tinha morrido. Mas não. Tive azar. Não só não morri como fui condenada a prisão perpétua." Uma prisão perpétua sem culpa formada. Albertina leva um lenço aos olhos. Não se conforma: "Logo eu que sempre gostei tanto de andar na rua, de dar os meus passeios. Tinha o passe e ia para todo o lado. Ai menina, ai menina... Quando vou para a janela, farto-me de chorar. Sempre que vejo os meus autocarros passar penso nos sítios todos para onde eu ia, se pudesse."
Se pudesse, Albertina ia de caras a Belém comer um pastelinho ou dois, apanhava mais um autocarro ou outro e ia até à Avenida de Roma ver as montras, continuava por ali fora até voltar para casa ao fim do dia. Se não fosse a osteoporose e a coluna e as dores na perna e as artroses, se não estivesse "assim toda velha" não vivia pregada à janela a ver os autocarros passar.
Vale-lhe o apoio da família e da empregada que lhe trata da casa, faz companhia e descreve o que se passa na rua: "Os olhos dela são os meus. Ela vai à rua, conta-me as novidades, descreve-me os sítios que não vejo há cinco anos, manda-me os cumprimentos dos comerciantes... É um anjo. Se não fosse ela..."
Albertina é viúva há doze anos. Tem dois filhos e três netos. As visitas não são tão frequentes quanto ela gostaria, mas "já se sabe, eles têm a sua vidinha, é mesmo assim". E se há coisa que recusa é ser um estorvo na vida de alguém. "Deus me livre! Antes morrer já hoje."
Histórias como a de Albertina Costa são muito mais comuns do que se possa pensar, sobretudo nas zonas velhas da cidade de Lisboa. Alguns prédios antigos com quatro e cinco andares já sofreram alterações e receberam elevadores. Outros, por impossibilidade física ou indisponibilidade financeira, não. E os habitantes dos andares mais altos envelhecem entre quatro paredes, demasiado perto do céu, demasiado longe da vida que continua, vários andares abaixo.
Entre a dona Albertina e a rua há 68 degraus. Quatro andares. Entre ela e o bulício da Baixa lisboeta há uma barreira intransponível. Albertina Costa tem 82 anos e não sai de casa há cinco. "Já viu o que é, minha querida? Cinco anos aqui fechada? O que me vale é a janela. Sento-me aqui, tenho esta almofadinha para apoiar os braços e fico a ver quem passa. É triste. Mas é a vida."A vida da dona Albertina ficou reduzida às duas pequeníssimas assoalhadas do seu quarto andar sem elevador quando, há cinco anos, caiu das escadas e partiu a bacia. "Desci um andar de rabo que foi uma pressa! Quando parei pensei que tinha morrido. Mas não. Tive azar. Não só não morri como fui condenada a prisão perpétua." Uma prisão perpétua sem culpa formada. Albertina leva um lenço aos olhos. Não se conforma: "Logo eu que sempre gostei tanto de andar na rua, de dar os meus passeios. Tinha o passe e ia para todo o lado. Ai menina, ai menina... Quando vou para a janela, farto-me de chorar. Sempre que vejo os meus autocarros passar penso nos sítios todos para onde eu ia, se pudesse."
Se pudesse, Albertina ia de caras a Belém comer um pastelinho ou dois, apanhava mais um autocarro ou outro e ia até à Avenida de Roma ver as montras, continuava por ali fora até voltar para casa ao fim do dia. Se não fosse a osteoporose e a coluna e as dores na perna e as artroses, se não estivesse "assim toda velha" não vivia pregada à janela a ver os autocarros passar.
Vale-lhe o apoio da família e da empregada que lhe trata da casa, faz companhia e descreve o que se passa na rua: "Os olhos dela são os meus. Ela vai à rua, conta-me as novidades, descreve-me os sítios que não vejo há cinco anos, manda-me os cumprimentos dos comerciantes... É um anjo. Se não fosse ela..."
Albertina é viúva há doze anos. Tem dois filhos e três netos. As visitas não são tão frequentes quanto ela gostaria, mas "já se sabe, eles têm a sua vidinha, é mesmo assim". E se há coisa que recusa é ser um estorvo na vida de alguém. "Deus me livre! Antes morrer já hoje."
Histórias como a de Albertina Costa são muito mais comuns do que se possa pensar, sobretudo nas zonas velhas da cidade de Lisboa. Alguns prédios antigos com quatro e cinco andares já sofreram alterações e receberam elevadores. Outros, por impossibilidade física ou indisponibilidade financeira, não. E os habitantes dos andares mais altos envelhecem entre quatro paredes, demasiado perto do céu, demasiado longe da vida que continua, vários andares abaixo.
fabuloso
ResponderEliminarobrigada pela partilha
Quando comprei aqui casa na Alta, os meus pais resolveram seguir o exemplo. A única razao para eles foi o facto da casa onde estão não ter elevador e começarem já a temer o futuro. Mas como isso ainda está longe, ainda ficaram por lá por enquanto.
ResponderEliminarE olha que isto nao é uma realidade só da zona velha, velha. Os meus pais vivem na Margem sul, num prédio sem elevador porque é de 3 andares. Embora qd não se pode descer e subir, tanto faça ser 3 como 10. Mas estas situações mantêm-se e manter-se-ão. Basta ver o exemplo do Empreendimento das Galinheiras (http://empreendimentodasgalinheiras.blogspot.com/), um condominio a estrear agora.
Não é uma situação exclusiva das zonas velhas, não. Aliás até é interessante abordar as consequências sociais dos prédios com elevador e sem elevador. Sempre morei, até há 5 anos, num prédio sem elevador, no centro de Lisboa, e todos os vizinhos se conheciam pelo menos por se cruzarem nas escadas. No prédio ondo moro desde aí, com 9 andares e 2 elevadores, ainda ontem vi pessoas pela primeira vez.
ResponderEliminarE quanto maiores são os condomínios mais estranhos somos uns dos outros...
ResponderEliminarÉ verdade Pedro... Curiosamente, no saudoso Bloco B do lote 15.5 do Condominio da Torre, a generalidade de nós não era estranha. Criou-se um ambiente de predio muito bom, em pouco tempo. Mas cada vez mais acho que foi um caso isolado. Nao sinto isso no meu bloco actual, tambem no C.Torre. E acho q ainda tem menos condominos.
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